Albaneses e sérvios do Kosovo com vidas paralelas em Mitrovica

Cidade é o símbolo máximo da divisão étnica do Kosovo

A norte do rio Ibar Zorica Kragovic vende roupa para criança em dinares sérvios. A sul Burim Sezimi e a mulher, Tahire, negoceiam vestidos de noiva em euros. Num e noutro lado do rio, atravessado pela ponte de Austerlitz, sérvios e albaneses têm vidas paralelas dentro da mesma cidade, Mitrovica, o símbolo máximo da divisão étnica no Kosovo . A tensão é contida, o alarmismo varia, mas a situação pode explodir a qualquer momento: os sérvios recusam-se a aceitar a independência do Kosovo e os albaneses dizem não haver outra solução para o estatuto final da província que, desde 1999, é administrada pelas Nações Unidas e vigiada por 16 mil militares da NATO.

"Não vou ao outro lado [da ponte] nem a Pristina [capital kosovar] porque tenho medo. Na zona onde vivo há albaneses que apedrejam os nossos carros quando passamos", conta Zorica, ex-estudante de geografia com 22 anos, enquanto observa o mercado onde sérvios de todo o Kosovo vêm uma vez por semana vender produtos. "Nós vamos ficar aqui, não vamos sair, talvez venha a haver outra guerra [como a que nos anos 90 opôs as forças militares sérvias de Slobodan Milosevic aos combatentes albaneses do UÇK]." Dragomir, um professor de 60 anos, cujo salário é pago por Belgrado, alerta que no caso de os albaneses declararem a independência do Kosovo no dia 10 - data de entrega do relatório sobre o estatuto final da província ao secretário-geral da ONU - a situação ainda vai ficar pior do que já está e arrastar-se-á como em Israel e em Chipre.

Na parte sul de Mitrovica, cidade que fica a menos de 40 quilómetros de Pristina, Burim garante que "não haverá nova guerra porque os sérvios podem aceitar a independência", revelando ainda que tem vizinhos do Norte na lista de clientes da sua loja, situada numa movimentada rua a meio caminho entre os minaretes de duas mesquitas. "Os sérvios não vêm aqui porque têm medo, mas não têm razões, como no passado", diz Artan Maxhuni, dono de uma loja de móveis, a quem o negócio corre melhor no Verão. "É quando os emigrantes kosovares que têm dinheiro vêm a Mitrovica. As pessoas aqui não têm poder de compra, ganham 50 euros por mês, nem sequer pagam a luz!"

Mas o passado é, justamente, o problema para muitos dos 70 mil habitantes da cidade. Olivera Mitrovic, sérvia de 77 anos, perdeu dois filhos na guerra às mãos do UÇK. Não pode visitar as suas sepulturas porque estão do outro lado da ponte. "Todos os sábados as pessoas vêm aqui ao mercado e eu venho a este monumento chorar por eles", conta, adiantando que já nada lhe interessa em relação ao futuro do Kosovo . Ferlci Sh. viu o pai ser morto pelos sérvios em 1999 e a sua casa ocupada desde então. "Há oito anos que fugi do lado norte, agora vivo no sul, onde trabalho como músico", explica o albanês de 30 anos, barba comprida, já atrasado para a terceira oração do dia.

Mitrovica é, no contexto actual, uma das zonas mais sensíveis para a ONU. "Há três linhas vermelhas estabelecidas: uma é a de não permitir violência, outra é a de que os contactos com a ONU não sejam quebrados e a outra é que não haja controlo de segurança paralelos [por parte de grupos radicais no Norte do Kosovo ]", explicou ao DN o porta-voz da Unmik, Alexander Ivanko, assegurando que existem boas relações com todos os líderes daquela cidade e que existe já um grande "cansaço da violência no Kosovo e nos Balcãs em geral". É o que falta comprovar. A partir do dia 10.

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