Rosa Díez, da militância ao lado de Zapatero à ruptura com o líder socialista

Inimiga declarada do terrorismo basco, jamais mostrou ter medo

Rosa Díez nunca conseguiu estrondosas vitórias políticas que abrissem telejornais. No entanto, enfrentou mais desafios do que a maioria dos deputados que a partir de agora, tal como ela, se sentam no parlamento espanhol para a nova legislatura de quatro anos. Nasceu no País Basco, há 55 cinco anos.

 Cresceu com a asfixia provocada pela ditadura de Franco: o seu pai, apenas por ser socialista, foi preso e condenado à morte, acabando a pena máxima por lhe ser perdoada. E cresceu também com o terror imposto pela ETA . Há dez anos, quando já tinha desempenhado vários cargos políticos no País Basco, recebeu uma encomenda em casa. Lá dentro estava uma bomba da ETA . Por sorte, o explosivo, com defeito, não chegou a rebentar. Mas ela está na lista negra dos terroristas. E tem escolta policial desde 1991.

Há dias, quando subiu pela primeira vez ao púlpito do Congresso espanhol, como única deputada do pequeno partido União Progresso e Democracia (UPD), dirigiu-se a José Luis Rodríguez Zapatero. Tratava-se do debate para a eleição do presidente do Governo: Rosa informou-o de que iria votar contra. Tinham sido colegas de partido, quando ela ainda militava no PSOE, mas também se tinham enfrentado para a presidência dos socialistas, em 2000. Zapatero ganhou essa corrida e voltou a ganhar desta vez - apesar do voto contra de Díez e de quase metade da câmara, acaba de ser empossado no segundo mandato como presidente do Governo espanhol.

Mas Rosa Díez já obtivera um espectacular triunfo: conseguiu ser eleita deputada por um partido que fora criado seis meses antes das eleições legislativas de Março passado.

O seu percurso político e pessoal foi muito marcado pelo lugar onde cresceu - o País Basco. Desde cedo percebeu o que era existir num universo de medo e falta de liberdade, onde não se pode falar de política publicamente.
Essa luta constante formou-lhe o carácter independente e perseverante, mesmo quando a democracia lhe passou rasteiras - em 2003, era a candidata socialista ao município basco de Ondárroa, e embora o ilegalizado partido Batasuna, com ligação à ETA , não pudesse concorrer, esmagou a candidatura de Rosa. Ela teve 109 votos. E o Batasuna, que apelara ao voto em branco, conseguiu 2422 boletins.

Pouco se conhece da sua vida fora da política, até por motivos de segurança. Sabe-se que é casada e tem três filhos. Gosta de passear nos montes da sua terra. O seu músico preferido é Bob Dylan. Tem cuidado com a apresentação: gosta de roupa e os seus chapéus suscitaram comentários desencontrados entre os colunistas - os que assinalavam a raridade do seu gosto, e os que diziam que, num país moderno, é lamentável falar-se de uma mulher na política pelas suas opções de vestuário.

Rosa Díez nunca se preocupou com o eventual sexismo mediático, preferindo focar-se noutros problemas das mulheres: "Nas escolas não se deve permitir um elemento de discriminação entre homens e mulheres como o véu (islâmico). A lei muçulmana discrimina a mulher."

Queria dizer que já não estava de acordo com o partido em temas fundamentais, como o modelo de Estado ou as negociações com a ETA - a que a deputada sempre se opôs. Daí à demissão do PSOE - e do Parlamento Europeu - foi um curto passo. Meses depois, ainda em 2007, fundava a UPD com o filósofo Fernando Savater.

Há dias, durante o debate parlamentar de investidura de Zapatero - que lhe ganhara as eleições para a presidência do PSOE em 2000 -, ficou patente que existem contas políticas a ajustar entre ambos. Zapatero dedicou mais tempo a Rosa que a qualquer outro representante de um pequeno partido. Ela disse-lhe: "Não estaríamos hoje a lamentar o último homicídio da ETA se o seu anterior Governo não tivesse manipulado a justiça durante o seu disparatado e inútil processo de paz."

Zapatero respondeu: "Sabe onde aprendi a ter coerência e lealdade? No PSOE." Enganou-se no diagnóstico - por ser coerente consigo mesma, e não com a máquina de um partido político, é que Rosa Díez virou costas ao PSOE e ousou dizer "não" ao líder socialista espanhol.

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