O último guerreiro da Padânia

Alto, desajeitado, pernas um pouco arqueadas, mãos enormes, feições bem marcadas, olhos negros grandes, nariz proeminente, o cabelo recentemente à moda, tipo crista de galo mantida à força de gel e brilhantina, mas usado durante duas décadas como uma cascata de caracóis grandes sobre a testa, o colarinho da camisa sempre desabotoado, mesmo com gravata, curta, a meio do peito, de nó sempre alargado, os sapatos nunca engraxados, as peúgas claras, a dobra demasiado comprida das calças que caem como um saco de batatas sobre os sapatos: Umberto Bossi não tem paciência para se aperaltar, não gosta de se levantar antes do meio-dia, é capaz de marcar entrevistas às duas ou três da manhã.

A primeira entrevista ao DN foi em Milão, em campanha eleitoral, no longínquo início da sua carreira política, em 1987, quando foi eleito pela primeira vez senador. Bossi marcou o encontro às 20.00 no Hotel Mediterrâneo. A entrevista começaria às 02.00 da madrugada. "Só falo bem depois da meia-noite", disse. Há 15 anos, Umberto Bossi surgiu na vida política do norte de Itália, enquanto líder de um movimento que respondia à revolta contra os impostos que favoreciam sobretudo as regiões do Sul. "A Liga Norte surgiu como um partido étnico-regionalista para proteger a identidade cultural do Norte, contra a corrupção e o centralismo de Roma", declarava Bossi .

Natural de Cassagno Magnano, o deputado e senador que fundou a Liga Norte, o partido cujo objectivo tem sido a independência, hoje apenas fiscal, do Norte de Itália, já foi ministro e eurodeputado. Depois das últimas eleições, Bossi , de 64 anos, já fez saber que pretende ser vice-primeiro-ministro e ministro das Reformas Institucionais.

Simpatizante do PCI enquanto estudante, é casado (pela segunda vez) com Manuela Marrone, siciliana, quatro filhos. Frequentou a Universidade de Medicina de Pavia, mas não se formou. Em 1979, tornou-se amigo e discípulo de Bruno Salvadori, independentista e membro da União De Val d'Aosta. Dois anos depois, após a morte deste num desastre de automóvel, fundou a Liga Autonomista da Lombardia, que se expandiu nas regiões do Veneto e Piemonte, para se tornar na Liga Norte.

Os escândalos da "Tangentopolis" (corrupção e ilegalidades financeiras), que envolveram os principais partidos, a partir de 1992, de que resultou o fim da então classe dirigente, com ordens de prisão e até suicídios, foram a sua grande oportunidade. Bossi apoiou os juízes de Milão, liderados por Di Pietro, e apresentou-se como a "nova figura política", honesta e competente, mesmo se mais tarde foi condenado a oito meses de prisão suspensa por ter recebido financiamento ilícito de cem milhões de euros.

Tudo se pode dizer de Bossi , menos que viva das aparências. São famosas as suas gafes e palavrões, usados quase infantilmente, mas que humanamente lhe valeram uma simpatia e tolerância especiais.

Desde 1990, dirige as celebrações "independentistas" da Padânia, com uma "passeata anual de Verão" a Veneza, acompanhado pela "tribo" dos Padanos Pontida, todos com lenços verdes ao pescoço.

No entanto, e apesar de iniciativas que aparecem aos olhos de muita gente, no centro e sul do país, como gags de um filme de Totó, a linguagem de Bossi e da Liga é sempre bem percebida pelo seu público, porque exprime de modo sintético o que muitos lombardos sentem e pensam. Bossi fala contra os poderosos. Não foi por acaso que a Liga Norte cresceu com o fim da Primeira República e a chegada de um novo estilo político, o de Berlusconi.

É inesquecível presenciar um dos seus comícios eleitorais. Quando Bossi entra, fala de improviso por mais de duas horas. Com uma voz rouca, mas calma, tenta levar o público a raciocinar sobre as grandes transformações da nossa época. O quadro que desenha diante da nossa imaginação fascina: as intrigas dos alemães, as alianças subtis anti-europeias entre a França e os EUA, a história dos bombardeamentos aéreos, a Albânia dos ladrões considerada como a grande base americana para destruir a União Europeia, os erros de Putin, a relação entre economia, religião e política…

Nos últimos tempos, e depois de um derrame cerebral (quando se encontrava nos braços da amante, a actriz Luiza Corna), reabilitado após meses de coma, tem enorme dificuldade em falar. Mas foi eleito eurodeputado com 285 mil votos e voltou à política nacional em 2005.

Estas eleições foram a grande vitória da sua carreira. A Liga hoje terá um peso determinante no futuro Governo Berlusconi, que será pressionado com o problema da imigração e com as exigências reafirmadas de Bossi : "Não mais fronteiras abertas, não mais albaneses e romenos."

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