O jornalista que quer chegar ao topo do mundo

A página do clube de fãs de Boris Johnson não estava ontem disponível - talvez por já não ser necessária.

A sua eleição para a Câmara de Londres coloca-o num novo patamar de credibilidade, pessoal e política, e força-o a uma imagem mais séria e ponderada do que a fotografia reproduzida ao iniciar a página, em que se mostra um Boris irreverentemente bocejando para a câmara. Isto quando acabava de ser eleito deputado por Henley, em 2001. Desde então, tem sido reeleito.

O que até se pode desculpar "no "adónis conservador" - note-se o singular - como Boris é apresentado pelo seu clube de fãs, mas sublinhe-se que a expressão é de 2003.

Espécie de enfant terrible da vida pública britânica da última década e meia, as raízes de Boris estão na Turquia. Basta recuar até final do século XIX para encontrar descendentes turcos na sua genealogia, membros da administração de um império otomano crepuscular. São os filhos desses funcionários que vão fixar-se na Grã-Bretanha.

O primeiro antepassado britânico de Boris será o seu avô, Osman Ali, que chega ao Reino Unido em 1920 e muda o antropónimo para Wilfred e o apelido para Johnson.

O pai - um dos primeiros comissários britânicos em Bruxelas - está em Nova Iorque com a primeira mulher, quando Boris nasce a 19 de Junho de 1964. Pelo facto de nascer nos EUA, Boris tem direito à nacionalidade americana.

O cargo do pai e as vicissitudes da vida familiar vão forçar Boris a frequentar diferentes escolas, de Bruxelas a East Sussex, à indispensável passagem por Eton. Não menos indispensável a frequência de Oxford, onde conhece o líder conservador, David Cameron , e adere ao Bullington Club, um círculo restrito de estudantes dedicado aos excessos.

Oxford será para Boris o tempo em que o perfume da política embriaga o filho de um conservador. Conta a biografia na BBC que, para ganhar a direcção da associação de estudantes, Boris trocou momentaneamente os conservadores pelos sofisticados e modernos sociais-democratas, grupo que deixara um Partido Trabalhista refém do esquerdismo. Por momentos, aquela cisão parecia destinada a chegar a Downing Street. O conservador (e também controverso) Jeffrey Archer escreveu na época Primeiro Entre Iguais, em que ficcionaliza essa possibilidade.

Mas a política vai ter de esperar. Primeiro, em 1987, o casamento. Casa com uma estudante e modelo numa cerimónia com música clássica ao vivo; perde a aliança logo a seguir.

Segundo, também em 1987, o trabalho. Começa no The Times, onde não ficará muito tempo. A falsificação de uma citação - de um familiar! - é causa para despedimento. Mas o Daily Telegraph escolhe-o para correspondente em Bruxelas, onde firma créditos como eurocéptico (ver texto nesta pág.) e comentador político. O que lhe vale a ascensão no diário conservador. Tenta a política: é candidato dos tories, em 1997, num feudo trabalhista, e perde a eleição.

Pelo caminho, o divórcio e um segundo casamento. Agora, com uma advogada de tribunal, Marina Wheeler, que conhecera em Bruxelas.

A conservadora e irreverente The Spectator convida Boris para editor. Aqui, num daqueles momentos em que o eleito Presidente da Câmara de Londres não mediu as palavras, lança o opróbrio sobre Liverpool, acusando os habitantes de cultivarem o "estatuto de vítimas" pelo modo como se comportavam após a morte de Ken Bigley, refém no Iraque.

Foi a gota de água. Boris é alvo de violentas críticas, a começar pelo irmão da vítima, que o acusa de ser "um tolo pomposo e egocêntrico" numa emissão radiofónica. O editor da Spectator enceta uma maratona de desculpas. Quando lhe perguntam se é para salvar a carreira política, Boris responde que não tem carreira.

Acumulam-se os desaires. É visto a fazer jogging com um lenço à volta da cabeça, com os símbolos dos piratas: passaporte garantido para má imprensa durante meses a fio.

A eleição de David Cameron para a liderança dos conservadores, vai valer-lhe uma vice-presidência do partido em 2003/4 e a função de porta-voz para a Educação do Governo-sombra, de 2004 até 2007.

Ainda recentemente, a irreverência de Boris numa das conferências do partido, vai obrigar Cameron a intervir numa operação de controlo de danos. Depois deste ter elogiado uma iniciativa de uma figura ligada à televisão, a mesma iniciativa é demolida numa intervenção de Boris.

Em 2007, tornara-se claro que os conservadores (agora que Blair se tornou sinónimo de maldição para os trabalhistas) estavam a subir nas intenções de voto e alguém como Boris era a figura ideal para enfrentar o envelhecido Mayor de Londres, Ken Livingstone, nos seus melhores dias também ele um enfant terrible da ala esquerda dos trabalhistas. E Boris aceitou o desafio. O o topo do mundo começa na Câmara de Londres.

Outras Notícias

Outros conteúdos GMG