María San Gil, uma mulher contra Rajoy

Naquele início de tarde, algo terrível iria transformar uma funcionária da autarquia de San Sebástian, numa referência para um dos maiores partidos de Espanha , e na mulher que, muitos anos mais tarde, talvez tenha iniciado o fim da presidência de Mariano Rajoy no Partido Popular (PP). Não foi tanto o que María San Gil fez no momento - correr atrás de um etarra até que, como confessaria mais tarde, disse para si mesma: "O que estou a fazer?" -, mas sim o seu empenho, nos anos que se seguiram, em fazer justiça e política num território, o País Basco, onde os nacionalistas radicais gritavam junto da sua janela: "Assassina, assassina".

Estes insultos são habituais entre os métodos dos terroristas e dos seus apoiantes. Quem está contra os seus actos e ideias é considerado responsável por todas as detenções, mortes e sentenças de prisão dos mártires etarras, como aquele que, nessa tal tarde em San Sebástian, entrou num restaurante, com a cara coberta, apontou a pistola à nuca de um vereador do Partido Popular, Gregorio Ordóñez, e disparou. No outro lado da mesa estava María San Gil.

Onze anos depois deste homicídio, ela enfrentou o assassino. Num tribunal de Madrid, em 2006, olhou finalmente para a cara de Txapote, numa espécie de ajuste de contas, com um gesto que sublimava todos os anos de luta contra o terror, bem como o nojo pela falta de respeito pela vida humana - da mesma maneira que todos recordam as imagens de San Gil, no tribunal, também não se esquecem do riso de Txapote diante da mãe e da irmã de uma das suas vítimas, assassinada com as mãos atadas, de joelhos, e com um tiro na nuca.

Foi contra tudo isto que San Gil fez política. E agora, diz que é pela mesma razão que se demitiu de líder do PP basco e criticou Rajoy. Para muitos, San Gil é uma referência moral dentro do partido, e mesmo para os espanhóis, ainda que os votos do PP no País Basco tenham caído 30 por cento nas últimas legislativas.

Este mês, San Gil recusou a estratégia a apresentar no próximo congresso nacional do PP, em Junho, na qual Rajoy propunha a reabertura do diálogo com os partidos nacionalistas moderados. Esta proposta acabaria por cair, mas San Gil disse, em conferência de imprensa, que se sentia decepcionada, e que Rajoy tinha apenas 40 dias para recuperar a sua confiança. Começava o desmoronamento em redor do líder dos populares, as punhaladas de gente que esteve perto dele nos últimos quatro anos, como o seu ex-secretário geral ou o seu assessor de comunicação.

María San Gil, a ex- estudante de filologia bíblica, entusiasta do latim, decidiu ter uma missão nessa tarde em que mataram o seu chefe. Uma missão que começou quatro meses após o homicídio, quando se apresentou como candidata a vereadora do município de San Sebástian. Foi eleita. Chegou a candidatar-se a alcalde da mesma cidade e a presidente do governo basco. Não ganhou as eleições , mas a sua postura contava mais que os votos - quando era ameaçada e insultada na rua, pelos pró-etarras, apresentava denúncias, ia a tribunal. E isso, num território onde muita gente tem medo de votar, é valorizado.

Com 43 anos, María San Gil afastou-se agora dos cargos importantes do partido, algo que foi aproveitado por quem quer fazer cair Mariano Rajoy.
Muitos ilustres lamentaram a perda de San Gil, mas ainda ninguém se apresentou como alternativa a Rajoy.
Nas últimas semanas, a mesma política de terra queimada que o PP fez na última legislatura, está agora a ser aplicada a Rajoy.

No diário El País, um político basco disse de San Gil: "Passou de defender um ideário a considerar-se a encarnação pura e dura desse ideário". Outro político disse que a mulher que entrou na política por uma causa, se tornou numa profissional, e que ao ter vivido em condições tão extrordinárias - as ameaças, a escolta, a falta de liberdade -, se esqueceu de como é a vida normal. Resta saber se María San Gil se foi embora por extrema fidelidade à sua causa, ou se faz parte do plano que pretende minar o caminho de Mariano Rajoy até ao congresso.

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