O regresso anunciado do grau zero da política

Mais do que a vitória eleitoral de Silvio Berlusconi e os seus aliados, foi a confirmação da sua inevitabilidade que mais chocou os que, ainda há um ano, davam o Cavaliere como politicamente morto e enterrado.

Para o cálculo de um êxito duplo (na Câmara dos Deputados e no Senado), apesar de tudo folgado, não basta a verificação de que a actual lei eleitoral deu uma ajuda importante. A esquerda, cuja última oportunidade de governo durou apenas dois anos de sobressaltos, não conseguiu nunca ultrapassar a velha imagem de fraqueza, divisão, impotência.

O "saco de gatos" da coligação a que presidiu Romano Prodi nunca foi mais do que uma vasta aliança com um único ponto em comum: serem todos os seus componentes fervorosos opositores de Berlusconi. De resto, nada mais unia os democratas-cristãos de centro-esquerda (mais uma originalidade italiana, provocada pela implosão da Primeira República, em 1992) e os comunistas de Fausto Bertinotti, por exemplo. Nem a acção social nem a política externa, nem a estratégia nem os movimentos tácticos. Por causa dessas tão radicais diferenças caiu, aliás, o Governo Prodi, após meses e meses em que deixou a nu as suas evidentes fragilidades, enquanto Berlusconi e os seus aliados iam capitalizando votos por haver.

O novo Partido Democrático - nascido da fusão dos ex-comunistas da DS e dos liberais ex-tudo da Margarida - parecia, ao menos, apesar da inevitável confusão ideológica de um ambicioso grande partido "à americana", evitar a ambiguidade da Oliveira (e da União), em nome de uma "modernidade" política e de uma direcção unificada em torno do ex-director do L'Unità e ex-autarca de Roma, Walter Veltroni. Para já, é muito pouco. A sorte foi ditada por um eleitorado apto para quase todo o género de experiências governativas.

A vitória de Berlusconi prova que as notícias da sua morte política eram exageradas. Mas não é razão para o magnata festejar. Quer a composição quer a acção do seu Governo ficarão dependentes de um incómodo aliado: a Liga Norte, de Umberto Bossi, inapresentável aos parceiros europeus.

Dos tempos de Mussolini dizia uma personagem de um romance de André Schwarz-Bart: "Se o fascismo é a taberna na política, o antifascismo é a política na taberna." Esses limites do movimento anti-Berlusconi ditaram, para já, o triunfo do grau zero da política.

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