ENTREVISTA Josep Sánchez Cervelló HISTORIADOR "Espanha inspirou 11 de Março"

Ao contrário do mito que se criou, o historiador catalão diz que Madrid nunca pensou atacar Portugal depois do Verão Quente porque temia as repercussões internas dessa decisão

A revolução portuguesa surpreendeu a Espanha e o regime franquista?

Creio que não. O regime franquista sabia que poderia haver mudanças em Portugal. Só não sabia quando, nem o alcance dessas mudanças. Nessa altura, o grande problema para a ditadura espanhola é que mantinha apenas relações diplomáticas e institucionais com Portugal.

Porque diz que não foi surpreendida?

Há, por exemplo, um relatório do embaixador espanhol, onde se alerta o Governo para a dimensão dos problemas, tendo em conta que as despesas militares de Portugal eram já superiores à produção do país.

Esse relatório é de quando?

Foi enviado depois do 16 de Março [de 1974]. O que significa que a Espanha admitia a hipótese da mudança.
Como tal, o 25 de Abril não os assustou...
Não, a figura do general Spínola tranquilizava-os totalmente.

E a hipótese de Portugal se transformar num país democrático?

Eles não pensavam que Portugal pudesse vir a transformar-se num país democrático. Pouco antes do 25 Abril, o Arriba, um jornal do regime, deu início à publicação de uma série de artigos intitulados Portugal na sua tranquilidade...
Teve de ser interrompida...
Claro que o 25 de Abril interrompeu essa publicação... Mas isso dá para perceber o nível de percepção que existia em Espanha ...

Quando é que a Espanha muda a sua posição? O que é que a faz mudar?

As primeiras comemorações do 1.º de Maio em Portugal. Foi algo que impressionou bastante o regime franquista e os seus serviços de segurança. Especialmente, quando uma equipa de reportagem da televisão espanhola filmou a chegada de Mário Soares e de Álvaro Cunhal a Lisboa. Isso levou-os a admitir que as coisas poderiam ser, afinal, muito diferentes. E, tanto assim foi que os responsáveis governamentais efectuaram uma projecção privada para Franco, mostrando-lhe o que estava a acontecer.

Qual foi a reacção?

Franco ficou aterrorizado! É nessa altura que Madrid decide distanciar-se de Lisboa, rompendo com a atitude adoptada após o 25 de Abril, quando a Espanha foi um dos primeiros Estados a reconhecer o novo regime.

Quando é que a Espanha começa a conspirar contra o novo regime?

Logo a seguir, quando começou a acolher alguns dos ex-responsáveis da PIDE/DGS. Foram eles que começaram a recolher as primeiras informações para a ditadura. E quem os organizou foi Jorge Jardim, que tinha chegado a Espanha , em Junho de 1974, se não estou em erro. O que alterou tudo porque a Espanha passou a dispor de informações.

Como era o relacionamento com Jardim?

Nenhum. Julgo mesmo que o regime nem o conhecia. Ao contrário do que sucedia, por exemplo, com Barbieri Cardoso. Creio que foi o antigo n.º 2 da PIDE/DGS quem alertou a Espanha para a importância de Jardim. O resultado é que foi à volta destas pessoas que se organizou o primeiro núcleo conspirador.
Esse núcleo contribuiu para alterar as posições iniciais da ditadura franquista...
Claro. Ao contrário da PIDE/DGS, que baralhava tudo, Jardim garantiu-lhes que a hegemonia política em Portugal era comunista e que, além disso, muitos dos militares que, nessa altura, começavam a ter protagonismo eram também comunistas ou próximos do PCP. E isso fez disparar os alarmes...

O facto de a Espanha ter como primeiro- -ministro Carlos Arias Navarro, que tinha feito toda a sua carreira em torno da segurança, influenciou alguma coisa?

Arias era conhecido pela oposição espanhola como o Carniceiro de Málaga. Por causa dos fuzilamentos que organizou depois da guerra civil [1936-39]. Além disso, era um duro, estava à direita do regime e odiava tudo o que lhe cheirasse a liberdade...
A Espanha começa, pois, a conspirar...
Ainda não. Até ao 28 de Setembro, Espanha dedica-se a recolher informações, enviando vários agentes dos seus serviços de informações militares para Portugal.

É verdade que a Espanha enviou vários agentes dos serviços de informações, na sequência do 28 de Setembro?

Não sei. O que sei é que, antes da criação do Serviço Director e Coordenador da Informação (SDCI), existia um outro serviço de informações em Portugal, do qual cheguei a ler alguns relatórios, onde revelavam a existência de muitos agentes espanhóis no país. Mas, a partir do 28 de Setembro, a Espanha começa a trabalhar para a criação do ELP.

Activamente?

Com dinheiro, com armas e com materiais diversos. Mas [Eurico] Corvacho, que comandava a Região Militar Norte (RMN), conseguiu que os seus serviços detectassem uma reunião do ELP, em que aparecem [Francisco] Van-Úden, Soares Martinez e um general da Força Aérea, que se chamava Tavares Monteiro. Nessa altura, o ELP estava já em contacto com vários partidos que tinham surgido nas colónias, criando-se, assim, uma teia conspirativa importante.

Ao longo desse período, houve algum debate entre duros e moderados do regime franquista sobre a melhor forma de lidar com a situação em Portugal?
Entre eles e não só. Na altura, havia os chamados aperturistas...
Fraga Iribarne?

Não, não, Fraga não... Eram essencialmente democratas-cristãos, que se reuniam em torno de um grupo que viria as ser designado por Tácito, e que juntava pessoas que depois confluíram na UCD, de Adolfo Suárez.

E Fraga Iribarne?

Fraga defendia maior dureza com Portugal. Julgo que ele temia, acima de tudo, que a situação portuguesa pudesse vir a encorajar a Galiza a tornar-se independente. Mas houve, de facto, um grande debate no interior do regime. Sobretudo porque a revolução portuguesa causava uma grande ansiedade no regime, sendo igualmente, embora no plano oposto, um factor de esperança para a oposição.

E dentro das forças armadas?

Também. Nessa altura, o chefe de Estado-Maior-General das Forças Armadas - em Espanha tem outro nome - era o general Díez Alegría, que era um renovador. E que tinha, por exemplo, entre os seus adjuntos o general Gutierrez Mellado, que veio a ser ministro da Defesa na transição. O que, por si só, já era muito significativo. Quanto mais não seja porque as forças armadas espanholas eram, nesse período, muito reaccionárias.
O que não as impedia, no entanto, de terem como chefe um moderado...
Um moderado que, curiosamente, tinha um irmão, que era jesuíta e membro do Partido Comunista (PCE). Mas Diéz Alegría defendia que as forças armadas deviam ser profissionais e que deviam estar subordinadas ao poder político. Mas ele acabaria por ser demitido, pouco tempo depois do 25 Abril, com uma desculpa muito polémica. Díez Alegria tinha visitado a Roménia, onde se avistou com Santiago Carrillo [líder do PCE]...

Com conhecimento do regime?

É evidente que o regime tinha conhecimento, mas o facto é que ele foi demitido. O que deu origem a muitas piadas na imprensa espanhola, onde Díez Alegría aparecia sempre relacionado com monóculos, muitos monóculos. Nessa altura, dá-se outro fenómeno. A oposição espanhola, que olhara sempre com desdém e com desconfiança para os militares, passa, de repente, a encará-los de outra forma. E isso deveu-se a Portugal.
Entretanto, já existia também a União Democrática Militar (UDM), que se inspirava no Movimento dos Capitães...
A UDM surgiu em 1974, mas só veio a consolidar-se em 1975. Tinha, como é óbvio, ligações a Portugal.

Porque diz isso?

Porque houve pessoas da UDM que chegaram a encontrar-se com vários militares portugueses. Houve até um articulista que chegou a afirmar que nunca os militares espanhóis tinham aprendido tanto o português como nessa altura...

O exemplo português podia ter sido repetido em Espanha ?

De forma nenhuma. Quando o regime se apercebeu da existência da UDM, reagiu e conseguiu desmantelar a organização pouco depois, prendendo os responsáveis. O que não impede, contudo, que eu entenda que a UDM contribuiu de forma decisiva para a transição democrática em Espanha : a sua simples existência obrigou o regime a ter de pensar na forma de utilizar as suas forças armadas.

Como foi desmantelada a UDM?

Foi muito simples: os militares que tivessem formação universitária eram suspeitos; depois, todos os que estivessem casados com mulheres que possuíssem formação universitária eram investigados; e ainda havia a lista de todos os militares que tivessem ido a Portugal depois do 25 de Abril. Este "pacote" e o cruzamento de dados que ele permitia foram mortais para a UDM.

Mas, antes disso, há dados que apontam para contactos entre a UDM e os revolucionários portugueses...

Sim, sim. Depois do 11 de Março, houve uma entrevista, em Madrid, entre Almada Contreiras, que chefiava o SDCI, e Luís Otero, um militar espanhol, que se encontraram numa cafetaria, na qual a UDM pediu ajuda para um golpe que derrubasse o regime.

Não deu em nada...

Sim, não passou daí. Mas os portugueses aproveitaram para lhes pedir uma relação das unidades militares que estavam mais perto da fronteira, informações sobre os planos para um eventual ataque a Portugal e as redes da extrema-direita que conspiravam contra Lisboa. Creio que o SDCI teve, nessa altura, um grande colaboração para a localização das redes que atacavam o novo regime.

Quando é que isso foi? Já depois do 11 de Março?

Depois do 11 de Março e, sobretudo, ao longo do Verão Quente...

O que o levou a assinalar a discrepância que, nesse período, existiu entre os dois países: quanto mais Portugal se radicalizava, mais o regime franquista endurecia...

Arias Navarro vivia num dilema: Se abrisse o regime, corria o risco de provocar uma explosão. Se o mantivesse fechado, podia suceder-lhe o mesmo que aconteceu a Marcello Caetano.

E Franco já estava muito velho...

Além disso, tinha também Parkinson. Ou seja, Franco já não contava. Curiosamente, a Espanha era, em 1972 ou 1973, bastante mais liberal do que Portugal. Em Espanha , por exemplo, já era possível comprar livros de Marx ou de Engels. Em Portugal, não.

Dois anos depois, inverteu-se...

Sim, lembro-me de um artigo de José Luis Cebrián, quando ainda estava no Informaciones, que se chamava O Dilema, e no qual desafiava Arias a abrir o regime. Mas o momento-chave foi o 28 de Setembro: pouco depois da queda de Spínola, a Espanha remodelou o Governo e todos os reformistas foram corridos.

E ao longo desse período, Franco nunca interferiu?

Há uma frase dele que é muito elucidativa. Aquela em que ele diz que Portugal e Espanha são como dois irmãos siameses. "Se um adoece e morre, o outro tem de carregar com o morto." Isso diz tudo.

E a reacção da Espanha é apenas determinada por razões próprias ou resulta de uma concertação com outros países, como os EUA?

Houve sempre uma atitude concertada com os países europeus e com os EUA. Apesar disso, julgo também que havia dois compartimentos, embora não fossem estanques. Por um lado, a Espanha tinha motivos e razões próprias, mas, por outro, existia uma dinâmica global. Nas vésperas do 11 de Março [de 1975], houve uma reunião com colaboradores de Arias, em que a Espanha articulou posições com os golpistas, alertando-os para a Matança da Páscoa...

Quem é que inventou essa lista de pessoas, que supostamente deveriam ser executadas em Portugal?

Creio que foi o PCP. Ou, então, pessoas ligadas ao SDCI.

E a Espanha acreditou?

Completamente. Foi Spínola que me contou. Tinha recebido essa informação da Espanha e tinha-a cruzado com outras informações que recebera da França. Como batiam certo... Além disso, fora tudo feito à pressa...

A Espanha estava envolvida no golpe?

Absolutamente. Mas não foi apenas a Espanha , havia muitos outros. De qualquer forma, creio que a lista da Matança da Páscoa resultou de uma infiltração portuguesa nas redes que actuavam em Espanha . Quanto às informações da França, não sei. Mas sei que Barbieri fazia a ligação à Espanha e à França, em simultâneo. E, de facto, na reunião de Madrid estiveram presentes o filho de Barbieri, Nuno, o tenente Casal Braga, Alpoim Calvão, Santos e Castro, além de Jorge Jardim.

Como é que Portugal reagiu a esses apoios? Apoiou a ETA e a FRAP?

Não, limitou-se a dar asilo a algumas pessoas. Tanto da ETA como da FRAP, um aliado estratégico da UDP e da LUAR. Para além disso, deu também algum apoio a oficiais da UDM. Nada mais. Nesse período, Portugal esforçou-se sempre por manter pontes com Espanha .

Mas não conseguiu...

Não, porque a Espanha tinha uma dinâmica muito própria. O máximo que Portugal conseguiu, nessa altura, foi que a Espanha se tornasse mais discreta. Nada mais do que isso. Até porque já tinha existido, entretanto, a reunião de 30 de Maio de 1975, na qual a NATO decidiu canalizar todos os apoios para o PS, para Mário Soares e para o grupo dos Nove. A partir desse momento, a Espanha fez aquilo que a Europa lhe disse. Mas nessa altura, já Portugal tinha também detectado que Miguel Ayedo, um comissário da DGS, era o responsável pelos serviços de informações espanhóis em Portugal, que as principais bases do ELP se situavam em Badajoz, Salíbria, Canizes e Ciudad Rodrigo ou até mesmo que o papel que o ELP utilizava nos seus documentos ou nos seus panfletos era de origem espanhola...

Indícios demasiados evidentes...

Completamente. E foi assim até ao 25 de Novembro. Só depois é que Madrid mudou.Em Dezembro de 1975, por exemplo, Spínola chegou a Madrid e a polícia não hesitou em roubar-lhe toda a documentação que deixou no hotel. Nessa altura, já existia o VI Governo, e a Espanha tratava-o como aliado...
O que explica a reacção moderada da Espanha ao assalto à sua embaixada em Lisboa...
E ao incêndio dos seus consulados.

Nesses dias, a famosa Divisão Brunete chegou a mover-se ou não?

Moveu-se. Mas apenas como forma de pressão. Nada mais. Claro que havia planos para uma invasão de Portugal, mas não passava de mero planeamento. É essa a função de um estado-maior.

A Espanha nunca chegou, portanto, a pensar invadir Portugal...

Pelo contrário. Eles sabiam que isso só complicaria a sua situação interna. O que explica a reacção ao assalto à embaixada.

Na sua opinião, quem é que planeou e executou o assalto à embaixada?

Quem queria provocar o VI Governo. Não é difícil perceber...

Oficialmente, foi a extrema-esquerda...

A extrema-esquerda costuma ser facilmente manipulável...

Qual era o objectivo?

Levar a Espanha a intervir, o que não deixaria de provocar, como Paradela de Abreu assinalou, a unidade de Portugal contra a Espanha . Quem assaltou a embaixada queria debilitar o VI Governo e recuperar influência e poder.

E Espanha não reagiu. Terá percebido?

Percebeu. Ou alguém lhe explicou.

O PRP cedeu armas à ETA e à FRAP?

À ETA , não creio. Era muito profissional e tinha redes próprias. Além disso, revoluções abertas como a portuguesa permitem muitas infiltrações. À FRAP já é diferente. Era pouco profissional.

Ao longo de 1974 e de 1975, a Espanha manifestou alguma preocupação com a descolonização portuguesa?

Sim. Por causa do Sara ocidental e das ilhas Canárias. Não é por caso que, nesses tempos, o núcleo mais importante do exército espanhol se encontra no Sara ocidental. Mas, ao contrário de Portugal, a Espanha tinha aceitado anteriormente o princípio da descolonização desse território. Não havia calendário, nem sequer data. Só o princípio.
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E nas Canárias?

A situação das Canárias já era diferente. Quando Manuel Alegre e aqueles que faziam a Rádio Portugal Livre deixaram Argel, as instalações da rádio foram ocupadas pelo Movimento Popular para a Autodeterminação e Independência das Canárias (MPAIAC). Foi uma situação muito semelhante à da Frelimo e do PAIGC, cujas instalações e rádios passaram para a Frente Polisário.

Então, como explicar o papel da Espanha na criação das frentes independentistas dos Açores (FLA) e da Madeira (Flama)?

Tanto a FLA como a Flama não passaram de meras organizações instrumentais. E quer a FLA quer a Flama condicionavam a ideia de uma eventual independência à instalação de um Governo comunista em Lisboa. Quando essa ameaça desapareceu, cessaram também os apoios da Espanha .

Qual foi a papel da Espanha na criação da FLA e da Flama?

A Espanha impulsionou-as. Desde logo numa reunião que se realizou nas Canárias, em Julho de 1975, e que na prática não passava de um desdobramento daquela reunião da NATO, de 30 de Maio...

Qual era a grande preocupação da Espanha nessa altura?

Evitar que a descolonização portuguesa contribuísse para acelerar a independência do Sara ocidental. O que a Espanha não desejava que acontecesse, apesar das promessas em contrário. E a Espanha chegou, em determinada altura, e quando ainda não existiam partidos no país, a criar o Partido de Unificação Nacional Sarauí, de forma a influenciar a descolonização.

Sem sucesso...

Sim, mas provocou a intervenção dos EUA, preocupados com a eventual influência comunista nas Canárias, que estão a 150 quilómetros do Sara ocidental. Além disso, cerca de 90% dos colonos no Sara ocidental eram canários. Mas, enfim, a Espanha acabou por se entender com a Argélia.
As forças armadas espanholas eram, nessa altura, muito reaccionárias, já que os outros viviam no exílio ou, então, tinham sido fuzilados. Mas Díez Alegría era um moderado."

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