Merkel terá que "dosear"austeridade

Analistas portugueses dão como certa a reeleição de Angela Merkel nas eleições legislativas, mas consideram que serão os "próprios interesses" da Alemanha a obrigar a chanceler a "dosear a austeridade" na Europa e apostar no crescimento da periferia.

A poucos dias das eleições legislativas de 22 de setembro na Alemanha, Viriato Soromenho-Marques, professor catedrático da Universidade de Lisboa e profundo conhecedor da política interna alemã, e André Freire, investigador e especialista em ciência política do ISCTE, não têm dúvidas de que serão os democratas-cristãos (CDU/CSU), de Angela Merkel, a levar a melhor na corrida eleitoral.

A "única incerteza", apontam, é qual será o parceiro de coligação escolhido por Merkel, já que os partidos que suportam a atual coligação governamental dificilmente vão conseguir formar "um governo solitário".

Os dois analistas consideram, contudo, que "qualquer que seja a aliança" que Merkel vier a estabelecer, Berlim vai acabar por "alterar" a sua estratégia para resolver a crise do euro -- uma mudança que acontecerá, no entanto, para "defender os próprios interesses alemães".

"Não vai haver uma mudança de política mas sim dos condimentos da política e da sua dosagem (...) Vamos assistir a um aligeiramento das medidas [de austeridade], até para elas continuarem a existir", refere Soromenho-Marques, para quem essa transformação poderá acontecer "durante a primeira metade do novo mandato".

Haverá, sustenta, um maior enfoque "na promoção do crescimento económico nos países da periferia", como Grécia ou Portugal, para que dessa forma a Alemanha também possa "assegurar a vitalidade das suas próprias exportações".

Este catedrático lembra que com a "previsível quebra das exportações alemãs" para os países emergentes, como a China, e para a periferia da zona euro -- que já compra menos produtos alemães -- a Alemanha corre um "risco muito forte" de a sua indústria "começar a ter uma quebra de encomendas muito desagradável" -- e quem sabe -- um dia também "entrar em recessão".

"Quando a crise for chegando ao centro, essa inflexão acabará por acontecer", acrescenta André Freire. Esse 'novo rumo' só poderá ser bem-sucedido, sublinham, se acompanhado por uma "mudança na narrativa" explicativa da crise.

A opinião pública alemã entende hoje a solidariedade como um custo e não como um investimento no futuro, que passa pelo aprofundamento da Europa, apontam.

Ambos lembram que serão temas internos como a crescente desigualdade social ou o emprego que vão fazer decidir as eleições, lembrando que a Europa tem tendência de olhar para a Alemanha como se tudo estivesse bem a nível interno, o que não é o caso.

A título de exemplo, referem a crise demográfica e o "grande problema do trabalho precário", já que os baixos níveis desemprego - uma das bandeiras de Merkel - escondem que "há 7,5 milhões de pessoas que trabalham por 400 euros nos chamados 'míni-jobs'".

Se o Partido Liberal Alemão (FDP) conseguir obter representação parlamentar, Soromenho-Marques vê "fortes probabilidades de ver a atual coligação renovada". Caso contrário, dá como "mais provável" uma coligação entre a CDU/CSU e o partido ecologista Os Verdes -- enquanto André Freire aposta "numa grande coligação com o SPD".

O catedrático lembra ainda que Os Verdes são um partido com experiencia governativa (1998-2005) e que poderão beneficiar Merkel a resolver um dos temas fraturantes: a transição energética do nuclear às renováveis, prometido pela chanceler em 2011, depois do acidente em Fukushima, mas que está "bastante atrasada e só funcionará num quadro bem europeu".

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