Analistas não esperam "grandes mudanças" para resolver crise

Qualquer que seja o resultado das legislativas de 22 de setembro, a estratégia alemã na Europa dificilmente terá grandes mudanças, afirmam analistas contactados pela Lusa, indicando que a crise europeia não é tema "preponderante" para os eleitores.

"Não será a crise ou a situação na Grécia ou Portugal a decidir as eleições, mas sim a situação na Alemanha, temas fraturantes como a crescente desigualdade social ou a transição energética [do nuclear para as renováveis]", disse à agência Lusa Gustav Horn, o diretor do instituto de estudos macroeconómicos e conjunturais IMK, um dos mais respeitados do país.

A reforma das pensões e da segurança social, o mercado laboral ou carga fiscal são outros temas que vão "fazer a diferença", segundo Tanja Börzel, que dirige os estudos europeus da Universidade Livre de Berlim.

Tal como Horn e Börzel, a maioria dos analistas contactados pela Lusa lembra que a crise na União Europeia é um assunto que "obviamente preocupa" os eleitores alemães e tem servido de arma de arremesso na luta eleitoral, mas mesmo assim é percebido como uma "questão secundária" pelos votantes.

Isto acontece porque a "situação económica da maioria dos alemães é boa", a economia continua a crescer e o desemprego encontra-se a um nível "historicamente baixo", aponta Nicolaus Heinen, analista do Deutsche Bank.

Os analistas ouvidos lembram que "grande parte do eleitorado" tem a perceção de que a coligação democrata-cristã de Merkel (CDU/CSU) - que procura um terceiro mandato - tem vindo a gerir a crise do euro de "forma segura" e acautelando os interesses alemães.

E isso, realçam, reflete-se também na vantagem -- ainda que "escassa", de 3 a 4 pontos percentuais (margem de erro de cerca 2,5%) - que as sondagens dão à coligação de Merkel sobre a possível aliança entre o Partido Social-Democrata (SPD) e Os Verdes - ou até sobre uma coligação mais à esquerda, que incluiria ainda o Die Linke.

Desde 2009, a CDU/CSU governa em coligação com os liberais do FDP.

"Muitos vão preferir continuidade ao experimentalismo", refere Tanja Börzel. E lembra que a crise -- designadamente o caso grego -- só ganhou "relevo" na campanha eleitoral, depois de Berlim ter admitido a possibilidade de um terceiro resgate para Atenas.

Antes disso, tanto Merkel como o seu principal rival, Peer Steinbrück (SPD), "evitaram o tema", que é "muito complexo de explicar " e "por receio de perderem eleitores conservadores", acrescenta Gustav Horn.

"Numa eleição que se prevê disputada, ninguém quer perder votos para os eurocéticos, como a Alternativa para a Alemanha", partido criado em 2010 por economistas para contestar o envolvimento alemão nas ajudas à zona euro -- e que algumas sondagens dão até 3%.

Acresce ainda que as propostas do SPD para ultrapassar a crise "não diferem muito das tomadas por Merkel - que sempre contou com o apoio dos sociais-democratas", lembra Michael Burda, professor de economia da Universidade Humboldt de Berlim.

Há mais de um ano que toda a Europa tem os olhos postos nas legislativas na Alemanha e há quem as considere como um possível ponto de viragem na crise do euro e no processo de refundação das instituições europeias e da moeda única comum.

Mas os analistas ouvido pela Lusa não anteveem "grandes mudanças" na estratégia alemã para a crise, mesmo se Merkel sair derrotada e um novo governo for integrado por SPD/Os Verdes ou até contar com a participação da esquerda.

Mesmo com uma 'grande coligação' entre a CDU/CSU e o SPD -- o cenário que é dado como o mais provável -- "não se esperam grandes alterações na estratégia alemã", apontam os analistas.

Berlim, acrescentam, vai continuar a apoiar os seus parceiros, mas irá manter a "pressão" para que avancem com reformas necessárias, a que se juntará um "maior enfoque" no crescimento e criação de emprego na periferia europeia.

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