"Com políticas credíveis o populismo não tem futuro"

Matteo Renzi, primeiro-ministro italiano, aposta numa Europa diferente que devolva a esperança aos cidadãos. Diz que se os governos apostarem em políticas credíveis o populismo não terá futuro, mas não considera que Grillo e Berlusconi estejam politicamente acabados.

Numa extensa entrevista dada ao jornal espanhol "El País", Matteo Renzi afirma que "se queremos salvar a Europa temos de mudar". Para o primeiro-ministro italiano e líder do Partido Democrático (PD), "o nosso país (Itália) foi o que teve a maior percentagem de votantes nas eleições europeias, o que prova que os italianos querem mudança e uma Europa diferente daquela que temos hoje", diz.

Questionado sobre se terá mais sorte no cargo que os seus antecessores ( a Itália já teve três primeiros-ministros nos últimos três anos), Renzi respondeu que "durante alguns anos não verão aqui outro primeiro-ministro", baseando a sua confiança no facto de a Itália ter escolhido a estabilidade (que diz representar). "A Itália está a mudar profundamente e, paradoxalmente, a estabilidade consiste na mudança e a mudança chama a estabilidade", diz, adiantando que "a mensagem das urnas foi muito clara, desde 1958 nenhum partido conseguiu este apoio eleitoral", por isso, conclui brincando com os jornalistas, "tenho muita pena por vocês mas terão de esperar muito tempo até verem outro primeiro-ministro aqui sentado".

Em relação ao apoio italiano à candidatura de Jean-Claude Junker à presidência da Comissão Europeia, o primeiro-ministro italiano afirma que "a posição do Governo italiano é muito clara: antes de se falar em nomes é preciso estar de acordo com a agenda política. É preciso saber, primeiro, quais as posições sobre as quais poderemos estar de acordo, em relação a Junker ou a qualquer outro candidato, porque é difícil pensar que se possa eleger uma pessoa sem haver um acordo global para a Europa. E nós queremos discutir esse acordo".

Pessoalmente, diz, "sou uma daquelas pessoas que está menos interessada nos nomes e mais na agenda. Estou menos interessado na partilha de cargos e mais interessado em entender qual será a estratégia da Europa nos próximos anos". A mim interessam-me mais os postos de trabalho do que os cargos do poder. E enquanto a Europa não tiver uma estratégia sobre a forma de combater o desemprego, qualquer tipo de discussão sobre cargos de poder é inútil", diz.

Para Matteo Renzi, o perfil de um presidente da Comissão Europeia deve ser o de alguém que "ame a ideia da Europa" e, adianta, "o verdadeiro amante da ideia europeia sabe que, assim como está, a Europa não funciona".

Em relação a Angela Merkel, Renzi afirma que tem "uma relação estupenda" com a chanceler alemã e que não vê a Alemanha como um "inimigo" mas como um "modelo". "Quando penso no mercado de trabalho e na eficiência da Administração Pública, vejo a Alemanha como um modelo. Isto não significa que não possa ter ideias diferentes sobre muitas questões ou pertencer a famílias políticas distintas". Para Renzi, "a Alemanha tem todo o interesse em que a Itália cresça economicamente e os ajustamentos de fundo na Europa não podem estar apenas centrados na austeridade, mas também no crescimento económico porque, sem um grande combate ao desemprego e uma forte aposta no crescimento económico, qualquer medida relacionada com a austeridade estará votada ao fracasso".

Questionado sobre o resultado eleitoral de Beppe Grillo (Movimento 5 Estrelas) nas eleições europeias e se o ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi (Força Itália) já estará politicamente acabado, Renzi afirma que há um dado objetivo que é o resultado histórico italiano. "Em 70 anos, só por três vezes um partido superou os 40% dos votos (1948, 1958 e 2014). Dito isto, engana-se quem pensa que Grillo ou Berlusconi estão acabados". Para o primeiro-ministro italiano, "a Itália é capaz do melhor e do pior, é um país que convive com a genialidade e a loucura ao mesmo tempo e, do meu ponto de vista, é um erro pensar que Grillo fracassou. Teve um resultado inferior às expetativas, escondeu dos seus que tinha feito alianças internacionais, escondeu os nomes dos seus próprios candidatos, mas não está acabado. Só estará acabado se nós fizermos as reformas e as políticas necessárias", diz, adiantando que, "se fizermos reformas credíveis então, o populismo não terá futuro".

Mas alerta: "se os políticos estiverem convencidos que já passou o perigo e voltarem a fechar-se nos seus gabinetes em vez de irem perceber o que se passa nas ruas o populismo voltará em força".

Quanto a Berlusconi, diz que "Berlusconi é... Berlusconi. O seu partido obteve entre 16% e 17% dos votos, que é um resultado que muitos consideram inexplicável, mas que foi conseguido por um homem que este ano foi condenado e protagonista de várias polémicas mas continua a ter milhões de italianos a acreditar na sua Força Itália. Por isso não excluo ninguém, porque a atitude típica de uma esquerda de superioridade moral e intelectual, que inspira também muitos dos meios de comunicação italianos, não corresponde, de facto, à realidade do nosso país".

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