Na cidade onde vai decidir-se a América

A opinião é unânime: se a Pensilvânia for democrata, John McCain perde. A última sondagem, a uma semana do voto, dava vantagem de 9% a Barack Obama . O enviado do DN conta duas ruas da mais importante cidade do estado, Filadélfia, onde se não são demasiado visíveis as manifestações eleitorais, a América, essa, espelha-se a cada passo.

Entre duas ruas paralelas de Filadélfia, a América. Da Market Street, onde Benjamin Franklin, o inventor da ideia da nação americana, tinha a sua tipografia, à Arch Street, com o seu túmulo na esquina com a Rua 5 sob uma lápide de pedra branca simplesmente marcada pelo seu nome e da mulher.


Subindo a Market, logo a seguir aos taipais que anunciam a construção do Museu da História dos Judeus Americanos, dos imigrantes que são a quinta-essência da nação dos imigrantes, um outro museu todo ele dedicado a um objecto da cidade: o seu sino. O sino que tocou a rebate, a 8 e Julho de 1776, juntando o povo de Filadélfia, para ouvir a proclamação da Independência da América. E, desde aí, o Sino da Liberdade.


Filas de gente de todo o mundo para ver o que já vieram ver Mandela e o Dalai Lama. Um simples sino, já descido da torre, agarrado só ao suporte de madeira negra e velha. As pessoas fazem fila para se fotografar ao lado do bronze e partem. O museu que é só um sino que já nem toca porque está rachado. De som só a marcha que os altifalantes tocam em surdina. The Liberty Bell March (A Marcha do Sino da Liberdade), composta por um filho de imigrantes, o luso-americano John Philip de Sousa.


O sino foi moldado em 1751 para comemorar o 50.º aniversário da Constituição de William Penn que anunciou o destino reservado à Pensilvânia. Terra para receber os proscritos das outras. Chegaram os católicos fugidos da Inglaterra protestante e os huguenotes protestantes, da católica França, os Amish perseguidos na Alemanha e os judeus sefarditas com saudades da Espanha e Portugal que não os queriam.


Continuando pela Market, o City Hall, a câmara victoriana, encimada por uma torre que tem no topo a estátua do fundador do estado - William Penn, o "quaker" defensor da liberdade religiosa. No adro, uma representação do que Filadélfia pretende ser: centenas de indianos, escuros como são os do estado de Orissa, na costa ocidental da Índia, protestam. Um estrado, com a bandeira americana e a da Índia, fala à pequena multidão que protesta contra os homicídios recentes de católicos cometidos por extremistas hindus em Orissa. Da multidão, quase exclusivamente de imigrantes indianos, cartazes escritos à mão: "Parem a violência na Índia", "Liberdade religiosa"...


A manifestação certa na cidade certa


Além de indianos, um branco discursa. É um radialista que propõe levar ao seu programa a denúncia dos crimes: "Não no próximo sábado, porque temos de falar sobres as eleições, mas no programa a seguir." E acaba o discurso com: "Viva os Phillies! Parem a violência na Índia!" A multidão bate palmas a ambos. Porque já são cidadãos agarrados à América, logo vivendo a glória dos Phillies, a equipa local de basebol que chegou à final dos World Series, o maior campeonato americano. E porque, como todos os imigrantes, deixaram um pedaço de si na terra de onde chegam más notícias.


Passa-se para a rua paralela, a Arch, e sobe-se. Há um arco chinês, anunciando a Chinatown de Filadélfia. Na Arch Street há lojas de móveis e restaurantes chineses e quase todos com um cartaz na vitrina: " Obama : Esperança." No n.º 1010 é uma das sedes de campanha de McCain-Palin. No passeio e ao longo do quarteirão, estacionam belas das Harley-Davidson. A vitrina diz: "Victory Office", o Escritório da Vitória.


É dia de caravana de motoqueiros pró-McCain, a maioria ficou lá fora a beber cerveja e uma dúzia assiste ao discurso de um dos seus. É um homem de cabelos brancos, de jeans e colete de cabedal, que discursa com voz baixa e triste. Esteve sete anos preso no Vietname: "Só a quem tiraram toda a liberdade sabe o valor da liberdade." Ele está com McCain por tão fortes razões que as resume em porque sim: "Porque este é o meu país", diz, apontando o solo. O maior dos motoqueiros, também de cabelos brancos mas de rabo de cavalo, atravessa a sala, dá-lhe um abraço e regressa com lágrimas a rolar.


Entre motoqueiros com "Segunda Brigada" escrito nas costas do colete de couro, só um adolescente trazido pelo pai se destacava. Na camisola, um cotovelo sujo sugeria que ele preferia estar a andar de skate. Quando o pai o empurra para abraçar o antigo prisioneiro de guerra, ele arranja um pretexto para não ir: vai buscar um cartaz de McCain com o trevo verde irlandês. A sala da Arch Street - na última semana a 9 pontos de Obama no estado que McCain precisa absolutamente de ganhar - não parecia haver um comício, mas uma cerimónia fúnebre.

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