UE pressiona África nos direitos humanos

Sócrates, Angela Merkel e Sarkozy falaram de Darfur e Zimbabwe

Darfur e Zimbabwe marcaram o primeiro dia de trabalhos da cimeira UE- África , em vez da discussão de parcerias económicas e institucionais, como se esperava. Angela Merkel, logo na primeira ronda de intervenções, fez duros ataques à situação no Zimbabwe. "Estamos disponíveis para ajudar a criar um Zimbabwe democrático e próspero. A situação não é satisfatória e prejudica a imagem de África ", disse a chanceler alemã, que também se referiu ao Darfur e à Somália.

 

Merkel não esteve sozinha nas críticas. Nicolas Sarkozy e José Sócrates acabaram por liderar o esforço para introduzir no debate os direitos humanos. "Não nos resignamos ao que está acontecer e é preciso uma resposta rápida", afirmou Sócrates, presidente em exercício da UE, após uma reunião da troika europeia - que também incluía Durão Barroso e Javier Solana - com o Presidente do Sudão, Omar al-Bashir. O Presidente francês disse que "não pode haver divergências sobre os massacres no Sudão".

 

Nos meses da preparação da Cimeira de Lisboa, muitos temiam que a presença de ditadores, como Mugabe ou Omar al-Bashir, pudesse ser a questão central. Na sessão de abertura, as atenções começaram por se centrar em Mugabe, e na rua havia manifestações, mas ao longo do dia, a figura do líder do Zimbabwe foi perdendo relevância, a favor do tema dos direitos humanos.

 

Os líderes abordaram cinco temas: paz e segurança, direitos humanos, desenvolvimento, alterações climáticas e migrações. Em paralelo aos debates, houve uma série de encontros bilaterais, por exemplo, entre França e Espanha, sobre o combate à ETA. Mas a reunião-chave acabou por ser o encontro com al-Bashir. O próprio secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e Cooperação, João Gomes Cravinho, reconheceu a evidência: "Foi um encontro com o Presidente do Sudão para fazer pressão política." Segundo o relato de Cravinho, a reunião demorou mais de uma hora e decorreu em "linguagem diplomática muito franca". Os europeus falaram na eventual cisão do Sudão, a propósito da rebelião no Sul. A resposta sudanesa, segundo Cravinho, citava "progressos" e os europeus ficaram à espera de "notícias para breve". Em Abril, o regime de Cartum, acusado de armar as milícias árabes no Darfur, aceitou o envio de uma força híbrida de 20 mil homens para aquela região com o tamanho da França, no Oeste do Sudão. Mas recentemente voltou ao argumento de que não quer ver tropas europeias nesta força (acenando com um novo colonialismo). O Governo sudanês é ainda acusado de não colaborar com o Tribunal Penal Internacional, que já emitiu mandados de captura contra líderes sudaneses, motivo pelo qual Bashir também foi ontem pressionado, como lembrou Cravinho.