"Os africanos são adultos e conhecem o caminho para Pequim e Nova Deli"

"A amizade da Europa é muito importante para África . Mas é preciso deixar bem claro que os africanos são adultos e conhecem o caminho para Pequim e Nova Deli. Já não precisam de intermediários".

 

As palavras são do actual presidente da Comissão da União Africana, Alpha Oumar Konaré, que ontem falou sobre África e os desafios do século XXI numa palestra organizada pela Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento.

 

No contexto da eventual realização de uma segunda cimeira União Europeia- África , em 2007, durante a presidência portuguesa da UE, afirmou: "Nós queremos falar com os parceiros europeus, ter com eles um verdadeiro diálogo político, mas num contexto de respeito mútuo".

 

No entanto, avisou, os africanos estão "abertos a outros parceiros". O ex-presidente do Mali pensa que "a Europa deveria ficar contente com a multiplicação de parceiros, que foi acontecendo desde 2000, em vez de entrar em pânico com os contactos com a China ou a Rússia".

 

A primeira cimeira UE- África realizou-se, em 2000, no Cairo, também sob a presidência portuguesa, mas a segunda, prevista para 2003, foi adiada devido à oposição de países europeus como o Reino Unido à participação do presidente do Zimbabwe, Robert Mugabe, com o regime sob sanções da UE.

 

Questionado sobre eventuais soluções para ultrapassar este entrave, à margem da palestra, Konaré disse rapidamente ao DN: "Há uma vontade africana e europeia de realizar esta cimeira . Fixem uma data que nós resolvemos o problema".

 

No decorrer da palestra, o também ex-presidente da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental defendeu, ainda, que " África deve ter uma estratégia de influência, ser responsável, recusar um funcionamento na lógica da mão estendida e deixar claro que cabe aos africanos fazer a sua própria agenda. A situação em África não é uma fatalidade e a resposta está num outro tipo de desenvolvimento."

 

Admitindo graves problemas de má governação, corrupção, uma multiplicidade de conflitos aliada a uma forte circulação de armas, Konaré defendeu um tipo de desenvolvimento apoiado por uma matéria- -prima endógena e por um mercado interno, antes de sequer falar-se num mercado externo, sendo o objectivo final uma integração que conduza aos EUA de África .

 

 

"O drama humanitário no Darfur é inaceitável"


O presidente da Comissão da União Africana (UA) considera que o principal problema de África é a multiplicidade de conflitos como o de Darfur (que já fez 200 mil mortos na região). "O drama humanitário no Darfur é totalmente inaceitável para nós", sublinhou, ontem, Alpha Konaré, numa palestra que deu em Lisboa. Antes, o responsável explicou, à Lusa, que a UA "procura um compromisso com o Sudão para reforçar a missão" da organização no terreno. O Presidente do Sudão, Omar al-Bachir, tem recusado uma força da ONU no Darfur. "Tudo tem que ver com a liderança da força e a fórmula para a qual nos preparamos para avançar é com tropas africanas, sob comando africano, mas com apoio técnico e participação das Nações Unidas".

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Com a idade, tendemos a olhar para o passado em jeito de balanço; mas, curiosamente, arrependemo-nos sobretudo do que não fizemos nem vamos já a tempo de fazer. Cá em casa, tentamos, mesmo assim, combater o vazio mostrando um ao outro o que foi a nossa vida antes de estarmos juntos e revisitando os lugares que nos marcaram. Já fomos, por exemplo, a Macieira de Cambra em busca de uma rapariga com quem o Manel dançara um Verão inteiro (e encontrámo-la, mas era tudo menos uma rapariga); e, mais recentemente, por causa de um casamento no Gerês, fizemos um desvio para eu ir ver o hotel das termas onde ele passava férias com os avós quando era adolescente. Ainda hoje o Manel me fala com saudade daqueles julhos pachorrentos, entre passeios ao rio Homem e jogos de cartas numa varanda larga onde as senhoras inventavam napperons e mexericos, enquanto os maridos, de barrigas fartas de tripas e francesinhas no ano inteiro, tratavam dos intestinos com as águas milagrosas de Caldelas. Nas redondezas, havia, ao que parece, uma imensidão de campos; e, por causa das vacas que ali pastavam, os hóspedes não conseguiam dar descanso aos mata-moscas, ameaçados pelas ferradelas das danadas que, não bastando zumbirem irritantemente, ainda tinham o hábito de pousar onde se sabe.