Lisboa conta com Londres para a Cimeira UE-África

Brown não exclui hipótese de se fazer representar

O Reino Unido vai participar na Cimeira UE-África que a presidência portuguesa da União Europeia está a organizar, mesmo que o Presidente do Zimbabwe esteja presente.

 

Esta é, pelo menos, a convicção das autoridades portuguesas depois de terem lido - com atenção redobrada - o texto que o primeiro-ministro britânico publicou ontem no The Independent, explicando as razões porque não virá a Lisboa, caso Robert Mugabe também venha.

 

Mas Gordon Brown não diz, em nenhuma parte do texto, que o Reino Unido não virá à Cimeira UE- -África ou que o seu Governo não se fará representar. Pelo contrário, o primeiro-ministro britânico faz mesmo questão de formular um desejo ao seu homólogo português: o de que a reunião seja um sucesso. "É uma enorme oportunidade para criarmos uma forte parceria entre a UE e África, de forma a podermos combater a pobreza e a enfrentar as mudanças climáticas, avançando com novas iniciativas na educação, saúde e manutenção de paz."

 

É isso que explica a reacção do ministro dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado, quando ontem afirmou que também preferia ver Gordon Brown em Lisboa, em detrimento de Robert Mugabe.

 


Como explicar, então, esta aparente contradição?

 

Recorrendo ao próprio texto de Brown, que recorda as razões que levaram a UE a impor sanções ao Zimbabwe, um Estado que, no entender do primeiro-ministro britânico, é liderado por um Presidente "que abusa do seu próprio povo", recorrendo "à tortura generalizada" e "à intimidação da oposição".

 

"Os factos são óbvios", sustenta Brown: "Quatro milhões de pessoas fugiram do país; 80% da população está desempregada; quatro milhões vão precisar de ajuda alimentar até ao final do ano; e a expectativa de vida desceu para 37 anos."

 

Argumentos com os quais Portugal concorda, divergindo apenas do Reino Unido num único ponto: as relações entre a UE e África não podem estar condicionadas por Mugabe. Como tem sucedido nos últimos anos, inviabilizando a realização de qualquer cimeira desde 2000, uma vez que esmagadora maioria dos países africanos não aceita que o líder do Zimbabwe seja excluído.

 

Resta agora saber como será ultrapassado este impasse, numa altura em que ainda não foram dirigidos nenhuns convites para a cimeira, ao contrário do que um membro do Governo do Zimbabwe garantiu.

 

E tudo porque os primeiros convites só começarão a ser dirigidos no próximo mês, depois dos acertos que a UE e a União Africana estão a fazer. Nessa altura, talvez se perceba também qual será o nível de representação escolhido por Brown.

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Maria Antónia de Almeida Santos

Uma opinião sustentável

De um ponto de vista global e a nível histórico, poucos conceitos têm sido tão úteis e operativos como o do desenvolvimento sustentável. Trouxe-nos a noção do sistémico, no sentido em que cimentou a ideia de que as ações, individuais ou em grupo, têm reflexo no conjunto de todos. Semeou também a consciência do "sustentável" como algo capaz de suprir as necessidades do presente sem comprometer o futuro do planeta. Na sequência, surgiu também o pressuposto de que a diversidade cultural é tão importante como a biodiversidade e, hoje, a pobreza no mundo, a inclusão, a demografia e a migração entram na ordem do dia da discussão mundial.