"Colonizados devem ser indemnizados"

Líder líbio introduz temas de discussão

O líder líbio, coronel Muammar Kadhafi, deu ontem de manhã o tom do que poderá ser o debate mais aceso da Cimeira UE- África , a herança colonial. Numa conferência na Universidade de Lisboa, Kadhafi mostrou que sabia a História do país anfitrião: "Os povos que foram colonizados devem ser indemnizados", disse.

 

No salão nobre da reitoria não caiu um frio gelado. Pelo contrário, a sessão foi tumultuosa. Também não se dava o caso da audiência não ter compreendido o líder. Se havia dúvidas, Kadhafi insistiu, e o tradutor traduziu para um português suficiente: "Temos de ser justos. Temos de indemnizá-los por essa época de colonialismo. As riquezas que foram retiradas desses povos têm de ser devolvidas". Kadhafi lançara uma controvérsia, mas a conferência decorreu num tom entusiástico. E não era apenas a claque líbia que aplaudia, gritando até ocasionais palavras de ordem, de punho fechado.

 

A conferência sobre Problemas da Sociedade Contemporânea iniciou-se com atraso, após guardas líbios terem escrutinado com detectores de metal todos os presentes. Kadhafi entrou na reitoria com alarido, seguido por dezenas de fiéis e guardado por seis mulheres fardadas de camuflado de deserto. Dezenas de fotógrafos aumentaram a confusão e estalavam relâmpagos de flash nas raras ocasiões em que o líder movia um braço.

 

Apresentado por um académico, que o definiu como "líder da revolução líbia" e "obreiro da unidade africana", Kadhafi, vestido de negro, manteve-se imperturbável. Um assessor aproximou-se, houve um ligeiro gesto da cabeça do líder e o assessor, num movimento seco, mandou afastar as mulheres de camuflado.

 

No seu discurso, Kadhafi fez uma longa introdução, para defender a reforma das Nações Unidas: mais poder para a Assembleia Geral e menos para o Conselho de Segurança. Além de ter defendido as indemnizações para os colonizados, o dirigente líbio fez um ataque à democracia parlamentar, que considera uma "teoria falhada". Um exemplo eloquente: "Se há manifestações, é porque os deputados não conseguiram representar o povo". Respondendo a perguntas, o dirigente líbio prometeu propor à União Africana que torne o português língua oficial. Depois, foi a saída, em grande estilo, com tempo para alguns rápidos autógrafos do Livro Verde, pois à tarde estava previsto um encontro com mulheres...

 

 


"Onde ele vai, oferece dinheiro"

 

O tema eram os direitos das mulheres, a plateia exclusivamente feminina. E numerosa: numa tenda montada no lado exterior do Forte de São Julião da Barra (Oeiras) juntaram-se centenas de mulheres, na esmagadora maioria de origem africana. Uma megaoperação logística promovida pela embaixada líbia, que fretou vários autocarros para transportar as participantes.

 

Falando sobre os direitos das mulheres, Muammar Kadhafi apontou o dedo tanto à Europa como a África : "No mundo islâmico, nos países islâmicos reaccionários, a mulher é como uma peça de mobília em casa". Já na Europa a igualdade de direitos "é superficial" - porque, com as duas guerras do século XX, "a mulher foi obrigada a exercer deveres dos homens". E, para o líder líbio, as mulheres devem ter iguais direitos, mas não iguais deveres: "Não se pode esperar que uma mulher grávida guie um comboio ou um homem engravide".

 

O discurso foi aplaudido. Mas houve desilusões na plateia. Binta Bari, da Guiné-Bissau, foi ao encontro com uma expectativa: "Em África , onde ele [Kadhafi] vai, oferece dinheiro às pessoas. Esperamos que hoje faça o mesmo." Não fez.

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