"África é o continente que tem feito mais reformas"

O presidente da Comissão Europeia , Durão Barroso, acaba de nomeá-lo seu representante pessoal para África. Quais são as suas prioridades?
É, de facto, uma função pessoal e política no âmbito do Fórum de Parceria com África, em que os países do G-8 estão representados. Represento o presidente da Comissão Europeia neste fórum, lugar de reflexão e discussão política, ao mais alto nível. Um dos objectivos é elaborar propostas concretas para o desenvolvimento em África.

 

Os dirigentes europeus e africanos têm preocupações comuns, para além da retórica política?
Há preocupações comuns em diversas matérias. Desde as alterações climáticas ao aumento do apoio ao micro-crédito em África, na senda das experiências desenvolvidas pelo Prémio Nobel da Paz, Muhammad Yunus.

 

O próximo semestre, sob a presidência portuguesa da União Europeia , poderá ficar marcado pela cimeira UE-África. Qual é a sua expectativa?
É muito grande. O continente continua com índices muito elevados de subdesenvolvimento. Mas há muitas Áfricas. No seu conjunto, a classe dirigente africana tem hoje crescentes níveis de exigência e transparência, nomeadamente no âmbito do NEPAD (Nova Parceria para o Desenvolvimento Africano), em que cada país africano é avaliado pelos restantes países.

 

Mas no Zimbabwe, pelo contrário, a situação tem regredido - a tal ponto que pode inviabilizar a cimeira.
O Zimbabwe tem sido um factor de preocupação. Mas, quer do lado europeu quer do lado africano, há vontade de encontrar uma solução.

 

A Europa deve exportar a democracia para África?
A Europa tem um conjunto de valores políticos e culturais que deve defender, sem complexos. Mas o desenvolvimento dos países faz-se por opção de cada um. África já fez muitos progressos: é talvez o continente em que se têm registado reformas políticas mais profundas.

 

A África lusófona também o deixa optimista?
Sem dúvida. Há alternâncias no poder político, reforço da sociedade civil... Cabo Verde é um país modelar nesta matéria, apesar dos seus fracos recursos.

 

Nega a tese, alimentada por tantos analistas internacionais, de que África é um continente perdido?
Em absoluto. Os índices de crescimento económico em África multiplicaram-se na última década. O continente tem crescido, em média, cerca de 5% ou 6% ao ano.

 

Foi secretário de Estado quando Durão era ministro dos Negócios Estrangeiros. É um reencontro...
Voltamos a partilhar as preocupações que já tivemos no Governo. É um trabalho não remunerado que me dá prazer, dada a nobreza dos seus propósitos.

 

Há cada vez mais portugueses em cargos de destaque na cena política internacional...
Parece-me normal. Mas preocupa-me saber que 20% dos quadros portugueses recém-formados já têm de procurar hoje saídas profissionais no estrangeiro. É desejável que Portugal se torne um país cada vez mais atractivo para estes jovens.