"Excluir Darfur da agenda da Cimeira foi um erro"

O drama de Darfur vai ficar arredado da agenda oficial da Cimeira UE-África. Como comenta?
Lamento que um assunto tão importante seja encarado como marginal, susceptível de apenas ser discutido nos corredores da cimeira. É o respeito pela dignidade humana que está em causa. Não compreendo a decisão da presidência portuguesa da União Europeia.

 

É o resultado de pressões?
Acredito que tenha havido pressões do Presidente sudanês, Omar al-Bachir. A UE pode ter "cedido". Não sei. Não faço ideia de quem estabelece a agenda, mas ainda não é tarde para reconsiderar. Seria um bom gesto do Governo português.

 

Já esteve no Darfur?
Duas vezes. Sobretudo fora das grandes cidades, aquilo parece terra de ninguém, onde ninguém assume responsabilidades pelo que pode acontecer. Sente-se que a vida está em risco a qualquer momento.

 

O Sudão é um país onde a opulência convive com a indigência. Um país rico/pobre...
O Sudão está a tornar-se num país rico, por via do petróleo. As pessoas começaram a aperceber-se dessa riqueza do Governo, isso torna-o cada vez mais intransigente.

 

O petróleo "fala" mais alto do que os direitos humanos?
O petróleo influencia os decisores internacionais. A China, por exemplo...

 

A comunidade católica no Sudão sente perigo?
Para o Governo de Cartum, só conta o Islão, a maioria islâmica. Nós estarmos ou não estarmos, para o Presidente, é igual. Somos dez milhões - dois milhões de católicos em Cartum e mais de oito milhões no Sul -, mas, um dia destes, somos extintos.

 

Um dia destes, o Sudão fica completamente islamizado, sem espaço para católicos?
Há esse perigo. Explico-lhe porquê: o FMI aplicou no Sudão a sua velha receita: acabar com os subsídios para as populações carenciadas na produção de açúcar, pão, nos cuidados médicos. Esse corte prejudicou, maioritariamente, os católicos. Os islâmicos continuam a receber ajudas do Governo. A Igreja Católica no Sudão não consegue ajudar tantos necessitados ao nível dos cuidados médicos, por exemplo. A tendência para a conversão ao Islão compreende-se a esta luz. A decisão do FMI acabou por ser uma vantagem para o Governo promover o islamismo.

 

O que pensa da recente polémica em torno da professora britânica, que permitiu que os alunos dessem o nome de Maomé a um urso de peluche?
Um caso infeliz. Mas a professora também não foi suficientemente prudente na escolha das palavras certas.

 

Última pergunta: se Bush quisesse mesmo, não acha que a questão de Darfur estava resolvida?
Sabe, o Sudão tem o apoio do mundo árabe. Portanto, seria como no Iraque. E a América, convenhamos, não está preparada para outro Iraque.

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