Homenagem à política

A revista Time considerou a capa do jornal Público uma das melhores que homenagearam Mandela. Gostos são gostos, mas aquela página - bela capa, aliás - está errada. Relembro a página: um punho fechado (só isso como imagem) e, para se saber de quem é, o título "1918-2013 Mandela". O jornal decidiu optar por um símbolo para definir Mandela e a função dos símbolos é simbolizarem. O punho fechado significa luta contra uma opressão. Como todos os símbolos, o punho fechado pode ser indevidamente recuperado - o nazi norueguês Breivik ergueu-o em tribunal e o desonesto brasileiro José Dirceu também o fez quando foi preso. Em Mandela, é facto, o punho fechado tinha todo o simbolismo legitimado. Ele lutou, como os revolucionários russos contra o czarismo, em 1917, ou os operários espanhóis contra Franco, em 1936. Mandela lutou corajosa e legitimamente contra o apartheid. Mas esse, sendo correto e grande, é um seu lado menor. Daqui a cem anos, Graça Simbine vai ser conhecida como "a viúva de Mandela". Pela ótica do punho cerrado, deveria ser "a viúva de Samora Machel". Este combateu o colonialismo com armas na mão e venceu, de punho fechado, o exército inimigo de forma como Mandela não conseguiu contra o exército do apartheid. Nelson Mandela foi enorme exatamente depois do punho cerrado, quando, estadista, ele estendeu a mão. E isso era exatamente o mais imprevisível e difícil de fazer. Por isso é que ele é único.

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