Um mundo sem Ben Laden

Se olharmos em perspectiva, seremos forçados a concluir que Ben Laden esteve na origem de algumas das mais significativas mudanças estratégicas, ocorridas na última década, na sociedade internacional.

Em 11 de Setembro de 2011, assisti em Nova Iorque, como representante português nas Nações Unidas, ao modo como o mundo reagiu àquela que representava a maior provocação que a América havia já sofrido no seu território continental. Estes ataques somavam-se já a anteriores actos terroristas levados a cabo sob a responsabilidade da Al-Qaeda e induziram mudanças muito profundas na nossa cultura de colectiva segurança e defesa, para além de terem redesenhado o mapa de estabilidade de várias áreas do mundo.

Do Iraque à Indonésia, de Espanha ao Reino Unidos, de Marrocos a tantos outros terrenos de intervenção violenta, foi com alguma surpresa que verificámos estar perante uma verdadeira franchising do terror, que recorria a modelos diversificados de mobilização do extremismo islâmico.

Ben Laden só conseguiu, contudo, o seu trágico currículo de sucesso porque foi capaz de federar e potenciar tensões já latentes, fruto de situações sem resposta política. Não nos esqueçamos do modo como a "rua árabe" saudou as suas acções e como, a partir de então, a Al-Qaeda vem a conseguir uma forte popularidade, com recrutamento de legiões de mártires para missões suicidas. Fautor do 11 de Setembro, Ben Laden colheu dele todo o sinistro prestígio que o tornou no inimigo público número um do mundo ocidental, tornando-se simultaneamente herói de quantos o odeiam.

Todos nos interrogamos, nesta ocasião, sobre o efeito que a morte de Ben Laden pode vir a ter no universo da luta terrorista. Julgo que ninguém terá, para tal, uma resposta minimamente segura. Se a isso somarmos o vento de instabilidade que atravessa o mundo árabe, fácil é concluir que, num cenário de afirmação estratégica central para a segurança internacional, se vão viver tempos de grande indefinição.

* embaixador

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