Primavera sem Ben Laden

A morte de Ben Laden é politicamente vantajosa para Obama. A quatro meses do décimo aniversário do 11 de Setembro, o Presidente americano revela-se, no dossier Ben Laden, o comandante-em-chefe que George W. Bush não conseguiu ser. Capturar e matar o líder terrorista que provocou mais danos morais e humanos à maior superpotência da história mostra planeamento, melhoria da teia de informações e determinação, precisamente aquilo que se tem dito não ter Barack Obama. Fecha-se um ciclo iniciado com os ataques a Nova Iorque e Washington, abre-se uma janela de oportunidade para capitalizar o feito em círculos fora do partido Democrata em inícios da grande maratona eleitoral.

Esta operação exigiu tempo e sobretudo secretismo. A unilateralidade da acção americana resulta da profunda desconfiança nos serviços secretos paquistaneses, o que desde já indicia que o caminho azedo entre os dois países se manterá. Esta é talvez uma das duas maiores preocupações da Administração Obama: como melhorar as relações com Islamabad depois desta acção. A outra prende-se com os previsíveis golpes de vingança à morte de Ben Laden. A Al-Qaeda sobrevive-lhe e vai provar que está suficientemente forte para honrar o chefe. Mas este foi progressivamente descentralizando a rede evitando uma dependência excessiva a uma cadeia rígida de comando e controlo. O seu grande mérito é este: a ameaça terrorista inspirada numa contracultura fundamentalista (ao Ocidente e a grande parte do Islão) é um projecto político tão globalizado e disseminado que dificilmente será derrotado pelos meios convencionais do "mundo livre".

As networks regionais (África ocidental e de Leste, Médio Oriente e Magrebe, Europa e Cáucaso), as pequenas células de indivíduos integrados no quotidiano ocidental ou a acção experiente e geograficamente variável dos "veteranos do Afeganistão", continuam motivadas e prontas a honrar o projecto do grande mártir, como ontem lhe chamou o Hamas. Por morrer Ben Laden não começa a Primavera.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Anselmo Borges

Islamofobia e cristianofobia

1. Não há dúvida de que a visita do Papa Francisco aos Emirados Árabes Unidos de 3 a 5 deste mês constituiu uma visita para a história, como aqui procurei mostrar na semana passada. O próprio Francisco caracterizou a sua viagem como "uma nova página no diálogo entre cristianismo e islão". É preciso ler e estudar o "Documento sobre a fraternidade humana", então assinado por ele e pelo grande imã de Al-Azhar. Também foi a primeira vez que um Papa celebrou missa para 150 mil cristãos na Península Arábica, berço do islão, num espaço público.

Premium

Adriano Moreira

Uma ameaça à cidadania

A conquista ocidental, que com ela procurou ocidentalizar o mundo em que agora crescem os emergentes que parecem desenhar-lhe o outono, do modelo democrático-liberal, no qual a cidadania implica o dever de votar, escolhendo entre propostas claras a que lhe parece mais adequada para servir o interesse comum, nacional e internacional, tem sofrido fragilidades que vão para além da reforma do sistema porque vão no sentido de o substituir. Não há muitas décadas, a última foi a da lembrança que deixou rasto na Segunda Guerra Mundial, pelo que a ameaça regressa a várias latitudes.