"Matar", disse ele. E cumpriu o que disse

A 13 de Dezembro de 2001, a revista Time contou o vídeo em que, durante um jantar com sequazes, Ben Laden comentava a queda das Torres Gémeas, acontecida só três meses antes. A revista guardou o último parágrafo para citar esta frase que o terrorista disse aos seus: "Quando as pessoas vêem um cavalo forte e um cavalo fraco, por natureza tendem a gostar do cavalo forte." Sete anos depois, em 2008, durante a campanha, Barack Obama disse o que havia a fazer com Ben Laden - e disse-o numa palavra e de forma clara: "matar" - que surpreendeu os que o supunham fraco. Depois, ao ser eleito, ele escolheu uma equipa musculada para a segurança e política externa - Hillary Clinton, na Secretaria de Estado, Robert Gates, que transitou do Governo Bush para o mesmo posto na Defesa, e o general Jim Jones, que foi comandante supremo da OTAN, para conselheiro principal de Segurança. Nesse momento, os americanos começaram a suspeitar de que Obama não estava disposto a dar a outra face, não cumpriria um mandato como um seu correligionário, o democrata James Carter, que permitiu que os fundamentalistas do ayatollah Khomeini sequestrassem os funcionários da embaixada americana em Teerão - fraqueza que alimentou durante décadas a força do islamismo. Então, naqueles dias em que havia expectativa sobre o novo, tão original e desconhecido Barack Obama, os humoristas americanos foram os primeiros a perceber. Steve Colbert fingiu-se enganado: "Então, não era o Dalai Lama para a Segurança? E o Michael Moore não ia ser promovido a general, para filmar a retirada das tropas do Iraque? E o Bono?..." E, de forma ainda mais clara de falso espanto, o famoso Jon Stewart disse no seu programa The Daily Show: "Querem ver que quando Obama dizia que queria matar o Ben Laden era mesmo a sério?!" Eles, os humoristas, adivinharam, logo em 2008, antes mesmo de Obama tomar posse, que este Presidente percebera a metáfora de Ben Laden. Esta semana, o mundo inteiro entendeu. A América não aceita fazer de cavalo fraco.

Ler mais

Premium

João Gobern

Tirar a nódoa

São poucas as "fugas", poucos os desvios à honestidade intelectual que irritem mais do que a apropriação do alheio em conluio com a apresentação do mesmo com outra "assinatura". É vulgarmente referido como plágio e, em muitos casos, serve para disfarçar a preguiça, para fintar a falta de inspiração (ou "bloqueio", se preferirem), para funcionar como via rápida para um destino em que parece não importar o património alheio. No meio jornalístico, tive a sorte de me deparar com poucos casos dessa prática repulsiva - e alguns deles até apresentavam atenuantes profundas. Mas também tive o azar de me cruzar, por alguns meses, tempo ainda assim demasiado, com um diretor que tinha amealhado créditos ao publicar como sua uma tese universitária, revertido para (longo) artigo de jornal. A tese e a história "passaram", o diretor foi ficando. Até hoje, porque muitos desconhecem essa nódoa e outros preferiram olhar para o lado enquanto o promoviam.

Premium

Rogério Casanova

Três mil anos de pesca e praia

Parecem cagalhões... Tudo podre, caralho... A minha sanita depois de eu cagar é mais limpa do que isto!" Foi com esta retórica inspiradora - uma montagem de excertos poéticos da primeira edição - que começou a nova temporada de Pesadelo na Cozinha (TVI), versão nacional da franchise Kitchen Nightmares, um dos pontos altos dessa heroica vaga de programas televisivos do início do século, baseados na criativa destruição psicológica de pessoas sem qualquer jeito para fazer aquilo que desejavam fazer - um riquíssimo filão que nos legou relíquias culturais como Gordon Ramsay, Simon Cowell, Moura dos Santos e o futuro Presidente dos Estados Unidos. O formato em apreço é de uma elegante simplicidade: um restaurante em dificuldades pede ajuda a um reputado chefe de cozinha, que aparece no estabelecimento, renova o equipamento e insulta filantropicamente todo o pessoal, num esforço generoso para protelar a inevitável falência durante seis meses, enquanto várias câmaras trémulas o filmam a arremessar frigideiras pela janela ou a pronunciar aos gritos o nome de vários legumes.