Republicanos usam Bin Laden para justificar tortura

Os interrogatórios a prisioneiros de Guantánamo tiveram apenas um pequeno papel na identificação do mensageiro que levou à descoberta do esconderijo de Osama bin Laden. O uso recorrente de tortura em alguns detidos nada revelou, mas a operação contra o líder da Al-Qaeda já está a ser aproveitada por responsáveis da anterior presidência dos EUA para justificar o uso de técnicas de interrogatório brutais.

Os membros do anterior governo norte-americano, liderado pelo Presidente republicano George W. Bush, chamam à tortura "técnicas de interrogatório melhoradas", como o afogamento simulado, conhecido por "waterboarding". John Yoo, ex-responsável do Departamento de Justiça que escreveu em memorandos secretos que se justificava o uso deste interrogatórios, diz que o actual Presidente, Barack Obama, "pode reivindicar, com todo o direito, o êxito alcançado" na operação que levou à morte de Bin Laden, "mas deve-o às decisões duras tomadas anteriormente pela Administração Bush".

O The New York Times, que através do WikiLeaks teve acesso aos relatórios dos interrogatórios aos detidos na prisão localizada em Cuba, concluiu que os interrogatórios agressivos tiveram um papel pequeno na busca por Bin Laden, salienta hoje o El País. A descrição do mensageiro de confiança de Bin Laden, Abu Ahmad, foi feita por um detido que foi sujeito pontualmente a interrogatórios mais duros.

Mas os prisioneiros que foram sujeitos às técnicas mais agressivas não providenciaram informação relevante. Khalid Shaikh Mohammed, sujeito a "waterboarding" 183 vezes, mentiu e confundiu a CIA, serviços secretos norte-americanos, sobre a identidade do mensageiro. Glenn L. Carle, agente da CIA já reformado e que participou em interrogatórios a prisioneiros, disse ao jornal nova-iorquino que as técnicas coercivas "não proporcionarem informação útil, significativa nem fidedigna". "A conclusão é a seguinte: se tivéssemos obtido alguma prova determinante graças ao uso do "waterboarding" em 2003 teríamos capturado Bin Laden em 2003", vincou por sua vez Tommy Vietor, porta-voz do Conselho de Segurança Nacional.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Henrique Burnay

Discretamente, sem ninguém ver

Enquanto nos Estados Unidos se discute se o candidato a juiz do Supremo Tribunal de Justiça americano tentou, ou não, há 36 anos abusar, ou mesmo violar, uma colega (quando tinham 17 e 15 anos), para além de tudo o que Kavanauhg pensa, pensou, já disse ou escreveu sobre o que quer que seja, em Portugal ninguém desconfia quem seja, o que pensa ou o que pretende fazer a senhora nomeada procuradora-geral da República, na noite de quinta-feira passada. Enquanto lá se esmiúça, por cá elogia-se (quem elogia) que o primeiro-ministro e o Presidente da República tenham muito discretamente combinado entre si e apanhado toda a gente de surpresa. Aliás, o apanhar toda a gente de surpresa deu, até, direito a que se recordasse como havia aqui genialidade tática. E os jornais que garantiram ter boas fontes a informar que ia ser outra coisa pedem desculpa mas não dizem se enganaram ou foram enganados. A diferença entre lá e cá é monumental.

Premium

Ruy Castro

À falta do Nobel, o Ig Nobel

Uma das frustrações brasileiras históricas é a de que, até hoje, o Brasil não ganhou um Prémio Nobel. Não por falta de quem o merecesse - se fizesse direitinho o seu dever de casa, a Academia Sueca, que distribui o prémio desde 1901, teria descoberto qualidades no nosso Alberto Santos-Dumont, que foi o verdadeiro inventor do avião, em João Guimarães Rosa, autor do romance Grande Sertão: Veredas, escrito num misto de português e sânscrito arcaico, e, naturalmente, no querido Garrincha, nem que tivessem de providenciar uma categoria especial para ele.