EM BRANCO: UMA LUCIDEZ CEGA OU UMA CEGUEIRA LÚCIDA

Não se estranhe que José Saramago volte a usar a palavra «ensaio» para um romance. Saramago escreve essencialmente livros de ideias.As ideias nem sempre são boas, mas más ideias são sempre preferíveis a bons sentimentos. O primeiro problema das «ideias», em Saramago, é que por vezes se concentram numa dimensão conceptual, e depois o desenvolvimento nem sempre funciona: pensemos em História do Cerco de Lisboa (1989). O segundo problema tem a ver com a tendência de tornar as «ideias» numa tese, produzindo assim romances de mensagem, mesmo se essa mensagem foi ganhando, com os anos, acentos de «parábola», tão ao gosto sueco. Essa dimensão programática acentuou-se em A Caverna (2000), livro atroz, de um esquematismo assustador. A famosa «maldição Nobel» - que torna problemática a obra pós-prémio - fazia-se sentir. O Homem Duplicado (2002) também não se recomendava, mas não era tão ofensivo. E agora temos Ensaio sobre a Lucidez, o mais aceitável dos três.

O título deste décimo terceiro romance de Saramago, para além de indiciar o dito conteúdo ensaístico, tem uma explicação mais simples. Não se trata exactamente de uma «sequela» a Ensaio sobre a Cegueira, mas de um texto que retoma personagens e põe em paralelo certos eventos. Mas enquanto a cegueira tem propriedades alegóricas mais vastas, o centro deste romance é mais evidente: umas eleições são «ganhas» pelos votos em branco (com 83%). Perante essa espécie de golpe de estado legal, o governo decide tomar medidas drásticas: declara o estado de sítio, abandona a capital (única cidade onde o estranho evento ocorreu), retira as forças da ordem, sitia a urbe revoltosa até que os habitantes se arrependam de terem posto em causa a democracia. Na segunda parte do romance, através de uma carta de denúncia, surge a hipótese de o voto em branco maciço estar de algum modo ligado aos acontecimentos sucedidos quatro anos antes, precisamente os que foram narrados em Ensaio sobre a Cegueira. E tudo vai acabar em tragédia.

Não vale a pena escamotear que se trata, mais do que uma «análise» sobre a democracia parlamentar, uma condenação sumária e irrefragável de tal sistema. Queixa-se um governante desse: « (...) desastre extremo que seria o desmoronamento talvez definitivo de um sistema político que, sem que nos tivéssemos apercebido da ameaça, transporta desde a origem (...), no exercício no voto, a semente da sua própria destruição ou (...) de uma passagem a algo completamente novo, desconhecido, tão diferente que, aí, criados como fomos à sombra de rotinas eleitorais (...) nós não teríamos com certeza lugar» (pág. 180). Mas os juízos sobre essa dimensão cabem aos comentadores políticos, não à crítica literária. O que se pode sublinhar, do ponto de vista literário, são certas fragilidades em que Saramago incorre na ilustração da sua tese. Por exemplo: a caricatura. O discurso dos políticos ou dos jornalistas é sempre inacreditavelmente pomposo e improvável, num registo mais próprio de uma sátira descabelada do que de uma fábula política. Por outro lado, os meios repressivos usados por um governo democrático contra os seus cidadãos forçam a nota. O modo pacífico, alegre e suave como o bom povo se organiza em «autogestão» também não é crível: por mais que Saramago pareça acreditar na «democracia directa» e por mais que não se trate em rigor de um romance «realista», ainda assim a verosimilhança fica afectada. Também alguns momentos de «romance de espionagem» exigiriam um domínio maior sobre o género. E, sobretudo, há passagens excessivamente arrastadas, ausência total de humor, diálogos confrangedores, exercícios de narratologia pedestres, embaraçosas tentativas de cunhar aforismos do senso comum. Nada de novo em Saramago, mas mais aspectos mais graves numa história que ganhava numa feição mais tensa e percuciente.Uma novela bastava.

O romance tem, evidentemente, os seus méritos. O maior é, sem dúvida, a desenvoltura narrativa. Saramago mostra, de uma vez por todas, que é um romancista clássico, por mais que alguns se detenham em pormenores formais; o que importa em Ensaio sobre a Lucidez é a sucessão de eventos, e a segunda parte do livro - curiosamente a que contém menos ideias - lê-se com uma fluidez policial, mesmo se por vezes num registo de paródia que não se percebe se é propositada. O romancista também nos dá com alguma eficiência - e algum gozo perverso - os mecanismos do poder, o conflito entre figuras e facções, o maquiavelismo intrínseco aos políticos. Se tivesse conseguido evitar algumas correspondências factuais demasiado óbvias, teria sido, porém, bem mais interessante.Temas como a hierarquia e o materialismo são evidentemente assuntos sobre os quais Saramago escreve com facilidade, embora com demasiada insistência. Curiosa também é a centralidade das questões de consciência, nomeadamente a recusa de alguns políticos e polícias em serem cúmplices com a estratégia governamental de mentira e repressão. A ideia de «entender» e não «reprimir» os «revoltosos» tem afinidades notórias com o actual momento político, ainda para mais com uma cena premonitória: um atentado à bomba numa estação. A componente visual da narrativa também é convincente, num misto de jornalismo e linguagem cinemática que é eficaz no modo como nos apresenta as multidões, as manifestações mudas, a retirada, as luzes feericamente acesas em protesto.

Mais problemática parece a articulação entre a primeira e a segunda parte do romance, isto é, entre a «peste branca» que é o dito voto e a «cegueira branca» que remete para o outro Ensaio. Por um lado, tudo na narrativa sugere que se trata de um paralelo forçado, criminosamente urdido pelo governo, que recorre a todos os meios para superar a «subversão democrática». Mas, por outro lado, parece evidente que há episódios na cegueira que fazem parte da mesma «lucidez» que Saramago atribui aos que votaram em branco. A vontade governamental de culpar a única mulher que não cegara pelos eventos eleitorais de agora, implica algumas ambiguidades que exigem uma (re)leitura conjunta dos dois romances.Em ambos, fica uma curiosa pergunta: para Saramago, quem é afinal o inimigo? Que cada um decida.

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