Anatomia de uma reviravolta no PS

Carlos Zorrinho, líder parlamentar do PS, disse ontem que o seu partido mudou o sentido de voto (de favor para abstenção) nos artigos da maioria que "modelavam" o impacto dos cortes dos subsídios dada a "surpresa" ao saber que, afinal, esses artigos ficavam muito aquém daquilo que o PS pensava que ficaria consagrado. Uma afirmação que choca de frente com a realidade dos factos. O DN apresenta a anatomia da decisão e das negociações entre o PS e a maioria - negociações essas sempre negadas por Zorrinho (que se limitou a admitir encontros para "trocas de informações").

1. Sexta-feira, 25, 9h00: Reunião de dirigentes do PS (Zorrinho, Eurico Dias) com deputados da maioria (Luís Montenegro e Nuno Magalhães, entre outros) e com o ministro das Finanças para negociar a tal "modelação" dos artigos em causa (18 e 19). O PS propõe que até aos 750 euros haja isenção de cortes (a proposta original determina que seria a partir dos 485); e que os cortes totais só ocorram a partir dos 1500 euros (1000 na proposta original). O Governo ficou de fazer contas e dar uma resposta.

2. Domingo, 27, 22h00: Depois de uma reunião do núcleo duro do Governo (pelo menos Passos, Relvas e Portas), os líderes parlamentares do PSD e do CDS recebem um telefonema de Miguel Relvas convocando-os para uma reunião no dia seguinte às 8h00 no ministério das Finanças com o ministro Vítor Gaspar, para acertar a solução final.

3. Segunda-feira, 28, 8h00: Os líderes parlamentares do PSD e do CDS são informados da solução final de "modelação" do impacto dos cortes nos subsídios.

4. 9h00: Quando se encontrava em audiência com o Presidente de Moçambique, no Hotel Tivoli, António José Seguro é informado, a partir da residência oficial do primeiro-ministro, do conteúdo da proposta final que a maioria formalizará nessa manhã na AR.

5. 9h30: A bancada do PSD reúne de emergência para discutir a sua nova proposta de "modelação" dos impactos dos cortes nos subsídios. A essa hora o secretário-geral do PS anuncia - e está gravado - que o partido votará a favor das novas propostas da maioria. Anúncio feito ainda no Hotel Tivoli, depois da audiência com Gebuza.

6. 10h00: Torna-se público o conteúdo da nova proposta. Começaram a ser divulgados pelos media a partir dessa hora. A isenção de cortes será até aos 600 euros (485, na proposta original); os cortes parciais progressivos serão entre os 600 e os 1100 (entre os 485 e os 1000, na proposta original); o corte total ocorrerá a partir dos 1100 (a partir dos 1000 na proposta original.

7. 10h56: Num mail interno, o conteúdo da proposta final da maioria é distribuída a todos os deputados do PS.

8. 11H11: Por mail, Carlos Zorrinho comunica a todos deputados do PS o sentido de voto: "Informo que sobre as propostas do PSD/CDS vamos pedir a votação por números votando contra o numero 1 dos artigos 18 e a favor 19 (Que corta os subsídios) e a favor do número 2 dos mesmos artigos ( que atenua os impactos)." Zorrinho começa a ser bombardeado com mails dos seus deputados revoltados com a decisão de votar a favor do artigo que "atenua os impactos". Alguns argumentam que só estão vinculados à decisão da Comissão Política Nacional do PS de abstenção no OE-2012, ameaçando ir contra a decisão da direcção de bancada.

9. 12h00. Os artigos são votados. Consuma-se o volte-face no PS: em vez de votar a favor, o PS abstém-se. Começa a operação de controlo de danos, com Carlos Zorrinho a insistir na ideia (reafirmada ontem) de que o PS só mudou o sentido de voto porque a proposta da maioria ficou aquém das expectativas.

Os factos provam que quando a direcção da bancada determinou o voto a favor já conhecia o conteúdo final da proposta (que acabaria por ser aprovada só com os votos do PSD e do CDS). A mudança do sentido de voto deveu-se, isso sim, à revolta na bancada.

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