98,2% da água em Portugal é de qualidade

Cada ano que passa os relatórios da ERSAR registam avanços na qualidade da água. Ainda não se conseguiu atingir a meta estabelecida no plano, mas evolui-se muito nos últimos 20 anos

A qualidade da água em Portugal não é boa. É excelente. Pelo menos é isso que diz o último relatório da Entidade Reguladora dos Serviços de Águas e Resíduos (ERSAR) sobre a qualidade da água, o RASARP 2013, que refere que 98,2% da água que sai das torneiras é "controlada e de boa qualidade". Parecem números esmagadores pela positiva - ainda para mais se comparados com os números de 1993 (apenas 50% da água era considerada "segura") - mas há um senão: a meta do PEASAAR II (Plano Estratégico de Abastecimento de Água e de Saneamento de Águas Residuais 2007-2013) é de 99% - nunca foi atingida.

Os aplausos vão, no entanto, para o facto de terem sido praticamente eliminados os problemas de saúde pública associados à água. O presidente da ERSAR, Jaime Melo Baptista, destaca a evolução dos últimos 20 anos, que diz ser fruto de "uma estratégia de sucesso, com impacte muito positivo na saúde pública, na redução de doenças e óbitos e na redução de dias de ausência ao trabalho".

Jaime Melo Baptista garante assim aos portugueses que a água que bebem da torneira é "de confiança". No entanto, o relatório da autoridade que lidera diz que para as metas do PEASAAR serem cumpridas será necessário "um esforço adicional".

O presidente da ERSAR explica que, para melhorar os problemas ainda existentes, a reguladora "tem vindo a trabalhar de forma muito próxima com as poucas entidades gestoras que apresentam um desempenho menos satisfatório, incluindo com a presença de técnicos nossos no local, para apoiar a resolução dos problemas ainda existentes".

Jaime Melo Baptista explica que "os casos menos satisfatórios correspondem em geral a pequenos aglomerados do interior do País, resultando de alguma ineficiência da desin-feção, o que afeta os parâmetros microbiológicos, verificando-se também o incumprimento de parâmetros como pH, ferro, manganês, alumínio e arsénio, devido às características hidrogeológicas das origens de água".

Um estudo feito pelo DN em junho deste ano já alertava para o facto de zonas de abastecimento que abrangiam mais de 281 mil portugueses terem água com bactérias coliformes (com origem nas fezes) com um nível de incumprimento superior a 10%.

No relatório da ERSAR de 2013 (referente ao ano de 2012), este tipo de parâmetros microbiológicos continua a ser destacado, com os técnicos a ressalvarem que "os parâmetros que evidenciam uma percentagem de cumprimento dos valores paramétricos abaixo de 98% continuam a ser as bactérias coliformes e os enterococos, por ineficiência da desinfeção".

O DN também havia alertado que as zonas do interior eram as que tinham menos qualidade da água e que os fontanários eram o maior problema, o que se continua a verificar. No relatório da ERSAR de 2013, "a análise dos dados revela que existe ainda alguma fragilidade na qualidade da água dos fontanários que constituem origem única de água para consumo humano, já que para estes o indicador de água segura é de 93,17%."

Fora do domínio da ERSAR, também é consensual a melhoria da qualidade da água. O diretor-geral da Saúde, Francisco George, explicou que os avanços na qualidade dos serviços de água e saneamento nos últimos 20 anos "eliminaram os problemas de transmissão de doenças pela água". O mesmo foi atestado "em estudos que mostram o decréscimo da incidência de casos de notificação de hepatite A, que se transmite através da água", refere o responsável.

A coordenadora do Grupo de Trabalho da Água da Quercus, Carla Graça, também reconhece que "aumentámos a qualidade", destacando igualmente o ganho para a saúde pública: "Nos últimos anos deixámos de ter doenças relacionadas com a água." No entanto, defende que nunca se deve baixar a guarda na monitorização, lembrando um estudo recente da EPAL, que "detetou vestígios de anti-inflatórios e cafeína na água que, apesar de serem em quantidades muito pequenas, revelam que há novos contaminantes que antes não existiam e que no futuro podem ser problemáticos para a saúde pública".

O presidente da Associação Portuguesa de Distribuição e Drenagem de Águas (APDA), Rui Godinho, também destaca a evolução do abastecimento e da qualidade de água, lembrando que nos últimos 20 anos "mais 4,8 milhões de portugueses passaram a consumir água segura, tendo como base as normas nacionais e europeias".

Outra questão que por vezes é suscitada é se a água concessionada aos privados mantém a mesma qualidade, uma vez que há acusações de que - quando há presença dos privados na gestão - sobe o preço e desce a qualidade. Para desmistificar esta ideia, o presidente da construtora DST (uma das acionistas da empresa de água de Braga, a Agere), José Teixeira, lembra que ainda há uma semana e meia a Agere recebeu um prémio neste âmbito: o Selo de Qualidade Exemplar da Água para Consumo Humano 2013, atribuído por várias entidades do sector.

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