Simbiose de 'design' e tradição leva criações além-fronteiras

Mobiliário inovador. Depois de surgir na capa de uma revista da especialidade britânica, as peças criadas pela Munna conquistam mercados em todo mundo

Em 2008, a crise económica que desabou sobre a Europa já dava os primeiros sinais, com os investimentos, o empreendedorismo e os projetos inovadores a serem pensados e repensados, perante um cenário que não se adivinhava fácil.

Ainda assim, Paula Sousa, uma jovem designer, então com 30 anos, já com provas dadas no sector, consolidadas com uma experiência profissional em Itália, pesou os prós e os contras, e com estudo, formação e dedicação, decidiu seguir um sonho antigo, "pontapeando" os vaticínios negativos dos indicadores económicos para estabelecer a sua própria empresa e a marca Munna.

Talvez o significado em hindu da denominação escolhida - magia e poder - tenha destinado a que a Munna, em pouco mais de três anos, se tornasse um caso de sucesso na indústria do mobiliário nacional, suscitando admiração e cobiça além-fronteiras.

Atualmente, as peças criadas no ateliê em Leça do Balio, perto da cidade do Porto, podem ser fruídas em habitações, hotéis ou restaurantes de países tão distintos como Inglaterra, Azerbaijão, França ou Arábia Saudita, e, obviamente, em Portugal.

Logo nos primeiros minutos de conversa com a empresária Paula Sousa, percebe-se os ingredientes de sucesso. "A paixão na criação dos produtos" é o conceito-chave no léxico da Munna, em que detalhes como "o serviço aos clientes, a qualidade das peças e a inovação", corporizam resultados económicos crescentes ano após ano.

A criadora partilhou com o DN o estilo que adotou para o mobiliário que cria: "Não fazemos peças minimalistas nem clássicas. Tentamos fazer algo único. Inspiramo-nos na história da arte do mobiliário e, dentro dos vários estilos que existem, selecionamos algumas formas e alguns conteúdos e adaptamos para um estilo moderno."

No atual modelo de negócio, a Munna não aposta na produção própria. A empresa desenha as peças e depois subcontrata a sua execução física a outras firmas. Paula Sousa desfaz-se em elogios quando menciona a qualidade dos artesãos portugueses. "O legado da manufatura que temos em Portugal é maravilhoso. Temos autênticos artistas, com uma capacidade inigualável na execução de determinados detalhes. As máquinas até fazem mais rápido mas o homem faz bem melhor", sublinha.

A conjugação do design, da tecnologia e da tradição, da qual resulta as peças da Munna, tem sido uma fórmula de sucesso reconhecida em feiras e na imprensa especializada, que serviu de rampa de lançamento da marca quando, em 2008, a conceituada revista britânica Interior Designs for Professionals publicou uma peça da empresa na sua capa e elegeu uma das criações de Paula Sousa com uma das melhores do ano.

A aposta da Munna passa claramente pela internacionalização, pois tal como admite a empresária "Portugal é um país pequeno em consumo de design, sendo muito limitativo pensar apenas no mercado nacional". E a verdade é que o mobiliário português parece estar em alta em termos de aceitação internacional: "Ainda na última feira em que estivemos verificámos que muitos clientes estão a escolher fornecedores portugueses, elogiando a qualidade, a inovação e o design", notou Paula Sousa.

Perante tal potencial, a jovem empreendedora não hesita em deixar um conselho a outros criadores nacionais: "Recomendo que tenham persistência, ambição e capacidade para correr riscos e se lançarem neste mercado. Há enorme potencial para ser explorado, e quando se fala em crise acho que ela está no gestor e não nos criativos."

A indústria do design e do mobiliário em Portugal gera milhões anuais e tem sido apontada como um dos sectores que têm contribuído positivamente para os números crescentes das exportações nacionais.