O que é bom e bonito também pode ter alma lusa

Projeto Alma Lusa surgiu pelas mãos de uma mulher que se cansou de ouvir dizer que os objetos estrangeiros é que eram bons

"Em Portugal sempre se teve a ideia de que só o que vinha de fora é que era bom. Um povo que não se enxerga está mal consigo e está mal com o mundo, logo com o seu futuro." O tom crítico é dado por Ana Sousa Dias, que decidiu agir contra este "fardo" criando o projeto Alma Lusa, em 1999.

O seu conceito passa por promover e vender produtos desenhados por portugueses, produzidos no nosso país e que espelhem a cultura portuguesa. Na fase inicial da atividade abriu a primeira loja na Rua de São Bento, em Lisboa, espaço que ainda existe.

Ana fez o seu percurso profissional na área do marketing, trabalhando de forma muito estreita com o sector industrial, no qual acabou por conhecer os meandros de um negócio que viria a estar ligado ao seu projeto de vida. O design sempre fascinou esta aquariana, que já em pequena gostava de produzir as suas próprias peças, de uma forma muito artesanal, mas que, com o tempo, foi aprendendo a aperfeiçoar as técnicas, chegando a recorrer "à ajuda de pequenas fábricas".

"Conheci razoavelmente os meandros da nossa indústria. Deparei-me com situações tão caricatas como encontrar peças desenhadas e fabricadas cá, vendidas a grandes marcas internacionais, que eram depois importadas - caríssimas! - como produto estrangeiro", começou por contar Ana Sousa Dias, que "partilha" o nome com uma conhecida jornalista de quem é prima direita.

"Inicialmente a Alma Lusa apresentava apenas peças de design português contemporâneo, surgindo reações engraçadas, do género: 'É tudo muito bonito, mas é tudo italiano, não?'", conta e prossegue: "Com o tempo apercebi-me de que para afirmar o nosso design era essencial que as peças tivessem um cariz português. Cada país tem a sua cultura, uma história para contar. Procurei criar peças que traduzam o que é de Portugal e o que é ser português, e o design é uma ótima ferramenta, porque ajuda a captar a essência do que se quer transmitir. Não é preciso escarrapachar andorinhas e galos na montra, mas admito que inicialmente terá ajudado."

As primeiras reações às novas abordagens do galo de Barcelos, coração de Viana ou ao Santo António foram feitas de forma cautelosa e "gradual até chegar ao sucesso".

Ana Sousa Dias tem projetos na gaveta que por vezes têm de esperar seis anos para poderem ser apresentados ao público, "porque, se o momento não for o certo, o produto morre", explica, revelando as próximas metas a curto prazo da empresa "Em 2012 vamos lançar oito novidades ao longo do ano, a primeira estará pronta para ser dada a conhecer no início de Março."

Ana Sousa Dias trabalha só com designers portugueses e alguns dos produtos da Alma Lusa são criação sua e conta já com a preciosa ajuda da sua filha mais velha, Maria - "uma lufada de ar fresco".

A ideia de expansão tem sido muito pensada ao longo de década e meia. Porém, "mais do que termos muitas lojas - atualmente temos esta em São Bento e a do Aeroporto de Lisboa, muito vocacionada para o turismo, e já tivemos outros espaços -, a nossa estratégia passa por ter montras Alma Lusa, com produtos nossos e exclusivos, em espaços de referência, como o que já acontece no Centro Cultural de Belém. E estamos a ver outras oportunidades", confidencia.

A exportação não está posta de parte, mas Ana admite que se trata de um processo moroso e delicado, "porque deve garantir a qualidade não só das peças mas também assegurar as encomendas". E a concluir promete novidades para "breve".

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