O legado de Bordalo Pinheiro vai conquistar o Brasil

Um grupo de 'designers' brasileiros foi convidado a intervir na obra de Bordalo Pinheiro. Objetivo: internacionalizar

Quando o violinista José Relvas encomendou uma peça "saída das suas mãos", a Rafael Bordalo Pinheiro estava longe de pensar que a encomenda resultaria numa jarra de 2,30 metros. Em carta enviada a 1 de dezembro de 1895, o músico pediu desculpa por devolver tal obra- -prima, mas era impossível mantê-la numa sala tão pequena. Bordalo acabou por levar a peça para uma exposição de faianças no Brasil e, ainda hoje, a jarra Beethoven permanece no Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro.

A ligação de Bordalo ao Brasil, a língua comum e o desenvolvimento económico do País são motivos bastantes para a empresa apostar na internacionalização naquele país. "Pensamos alargar este projeto a outros países, mas a ligação de Rafael ao Brasil fez-nos começar por aqui", admite a diretora artística, Elsa Rebelo.

A responsável e primeira apreciadora da obra - ou não tivesse ela nascido nas Caldas de Rainha e o pai fosse escultor e seguidor da corrente Bordaliana - está à frente do projeto "Bordallianos Brasileiros" e já trouxe a Portugal metade dos cerca de 20 artistas convidados a fazer uma intervenção numa peça à escolha de Bordalo Pinheiro.

O mesmo projeto - que em Portugal contou com a presença de artistas portugueses e culminou com uma apresentação no Mude (Museu da Moda e do Design) para comemorar os 125 anos da fábrica - deverá estar pronto no final do ano e promete lançar o autor no mercado brasileiro. De lá, o artista Marcos Chaves trouxe inspiração da jarra de Beethoven e de algumas peças, como o prato em forma de folha de couve, que via nas casas de familiares e amigos - e que só mais tarde soube serem do mesmo autor. "A ideia é chegar a Portugal e contactar com as centenas de moldes do Bordalo, escolher uma e fazer uma pequena intervenção", diz.

Sem poder adiantar a peça que escolheu, Marcos fala dos parâmetros que estabeleceu para a sua criação. "Procurei peças mais surrealistas, menos utilitárias e mais bizarras. Queria interferir o mínimo no trabalho dele, mas dar um toque contemporâneo." Escolhido o molde, Marcos procurou um objeto "familiar ao mundo inteiro e, ao mesmo tempo, revolucionário". Resultado: uma peça de Bordalo com uma peça da Apple. "É uma homenagem ao Steve Jobs, que era um génio, como o Bordalo", diz a sorrir.

O resultado será conhecido no final do ano, depois de o molde que escolheu ser recuperado e reproduzido. "A peça eleita por Marcos é uma das peças na lista dos moldes a recuperar. Rafael deixou centenas de moldes em gesso e alguns deles estão de facto muito degradados e com os relevos, por vezes, muito gastos", explica Elsa Rebelo.

Moldes que acompanharam a história das Faianças Artísticas Bordallo Pinheiro. Rafael nasceu em Lisboa, era humorista, cartoonista e trabalhava para vários jornais quando decidiu mudar-se para as Caldas da Rainha. Abriu a fábrica de faianças em 1884 e em 1889 ganhava uma medalha de ouro em Paris por ter decorado o Pavilhão de Portugal, na Exposição Universal, com sardões, vespas e lagostas gigantes.

A fábrica viria a ser vendida em hasta pública após a sua morte, em 1905, mas o seu filho Manuel Gustavo abriria uma luta na justiça alegando que a sua obra era um legado diverso da fábrica. O filho acabou por dar continuidade à sua obra com um grupo de trabalho que preferiu recomeçar, embora com menos condições, junto do filho artista. Manuel Gustavo morreu sem deixar descendentes e foi um grupo de caldenses quem seguiu o rumo da fábrica. O grupo conseguiu manter a fábrica até 2009, quando, em risco de fechar, foi comprada pelo grupo Visabeira.

Hoje, o universo bordaliano repleto de lagostas, couves, abóboras e andorinhas em tamanho real está novamente na moda. E há verdadeiras obras de arte.

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