Lã de Arraiolos é fio condutor entre 'design' e artesanato

Restauro do assento de palha de uma cadeira serviu de inspiração. Agora é procurado na Net por clientes de vários países.

Apesar de sempre ter tido jeito para trabalhos manuais, João Bruno Videira estava longe de imaginar que haveria de se dedicar ao artesanato e ao design e deles fazer modo de vida. Tudo aconteceu por mero acaso, em 2006, quando deixou de se sentir plenamente realizado no jornalismo e lhe foi parar às mãos uma pequena cadeira de lareira, tipicamente alentejana, cujo assento de palha estava estragado.

Olhou para a cadeira e para uns novelos de lã e decidiu fazer uma experiência de restauro. "Desde pequeno que convivo com a lã de Arraiolos, pois a minha mãe, apesar de não ser alentejana, sempre gostou de fazer este tipo de tapete." A cadeira ficou como nova, o acento de palha ganhou o colorido das lãs de Arraiolos e até o próprio João Bruno Videira ficou surpreendido com o resultado final.

"Percebi todo o potencial de negócio que ali estava. Mais do que isso, era algo em que me poderia expressar livremente, o que também me atraiu bastante."

A oficina nasceu pouco depois numa divisão da casa onde habita. Fica junto à Igreja de Nossa Senhora da Graça do Divor, próximo da fonte onde nasce o Aqueduto da Água de Prata mandado construir em 1531 pelo cardeal D. Henrique para assegurar o abastecimento à cidade de Évora. Daí o nome da empresa.

O recurso ao microcrédito - alternativa a que recorreu por não dispor de histórico bancário - permitiu-lhe obter os 8300 euros indispensáveis para o início da atividade. Criou uma marca própria. Apostou num conceito inovador: fusão entre artesanato e design, no qual a lã de Arraiolos é o fio condutor para a "reinvenção" de mobiliário novo ou reciclado. E apostou na Internet para mostrar o seu trabalho ao mundo.

A estratégia rendeu frutos. "As pessoas descobrem-me pela Internet. Apesar de não ser uma comunicação direta, a informação está lá e à medida que as pessoas a vão encontrando acontecem coisas curiosas." Foi assim, por exemplo, que recebeu a proposta de um empresário interessado em explorar a marca na Escandinávia ou o convite para representar Portugal numa exposição de design na Sicília. "É sempre assim que acontece, são as pessoas que me contactam. Não ando a bater de porta em porta nem tenho uma participação muito regular em feiras e certames."

Há seis anos que João Videira se dedica por inteiro à sua arte, já tendo vendido peças para países tão diversos como Inglaterra, Holanda, Bélgica ou Emirados Árabes Unidos. "Não tive reação de estranheza, talvez de surpresa inicial em relação à originalidade do conceito, ao uso intenso da cor."

A ideia assente na "fusão total" entre artesanato e design, da qual resultam "pedras" de lã, pufes coloridos feitos a partir de pneus velhos, painéis de parede que podem servir como cabeceiras de cama, bancos, cadeiras, biombos e um sem-número de outras peças, muitas das quais ainda nem sequer saíram da cabeça do antigo jornalista. "Trabalho essencialmente por encomenda e acabo por fazer o que as pessoas me pedem. Através da Internet apresento uma gama de produtos que as pessoas podem adquirir tal como estão ou pedir para fazer alguns ajustamentos."

"São peças em que a linguagem contemporânea está presente numa junção do tradicional com o moderno", diz, garantindo não ser possível traçar um perfil do cliente da Água de Prata dada a heterogeneidade de público que o procuram.

Vertente em que cada vez mais aposta é o "trabalho em escala" através da colaboração com arquitetos de interiores ou unidades hoteleiras.

Diz João Bruno Videira que todas as peças "lhe dão prazer", guardando um "especial carinho" para a primeira que desenhou: uma estrutura de aço revestida com lã de Arraiolos que se encontra pendurada bem no centro da oficina, a receber os visitantes.