Da 'lagarta' infinita ao pufe de cortiça sustentável

Marca de móveis em cortiça foi o resultado de um projeto de investigação. Aposta inicial passa pela internacionalização

Mesa de cabeceira, banco de jardim, mesinha de uma sala de estar. O limite para as funcionalidades que a "lagarta" da Corque pode adquirir no dia a dia está na criatividade de quem a compra... quantas vezes quiser. A peça, desmontável e de cortiça, foi o último grande lançamento da marca, que, desde 2009, se tem dedicado a demonstrar que uma das matérias-primas portuguesas por excelência é sustentável e tem estilo.

"A Corque acontece como resultado de um projeto de investigação da Susdesign", recorda Ana Mestre, diretora de design da Corque e uma dos participantes na iniciativa promovida, entre 2006 e 2009, por aquela empresa. Na altura, a estratégia da equipa de investigação passou por encontrar um material que pudesse ser, simultaneamente, sustentável e "interessante" a nível de design. O vencedor não deixou grandes dúvidas em Ana Mestre.

"Das investigações ao nível de materiais que tivessem esta característica da sustentabilidade, a cortiça é o mais interessante", explica a responsável. Até porque, frisa, as suas potencialidades são também comerciais. Isto porque, para além de aquela matéria-prima ser muito diferenciável a nível tátil, o território do mobiliário de cortiça estava "ainda muito por explorar", o que permitiu "escolher novas formas e padrões".

O resultado está à vista de todos. À "lagarta" teoricamente infinita e sem forma definida, juntam-se assentos como o pufe de esferas - uma massa uniforme de cortiça visivelmente moldável a qualquer corpo - e a "corqui", uma cadeira de encosto. As inovações chegaram também à outra linha da Corque: os acessórios de interiores, de que são exemplo o frapé , os castiçais e as bases para quentes.

A apresentação das peças foi feita no estrangeiro e sem que houvesse reações negativas. "As pessoas ficam muito surpreendidas, habituaram-se a associar o material só a rolhas. A reação normalmente é muito positiva", conta Ana Mestre, sem esconder que o lançamento da marca que continua a operar em estreita parceria com a "mãe" Susdesign passou sempre pela internacionalização. O primeiro passo foi dado em Milão, a que se seguiram cidades como Madrid ou Londres e países como o Japão e os Estados Unidos. O périplo vai continuar este ano, estando a presença garantida em exposições de Milão (abril), Nova Iorque (maio) e Tóquio (junho). O cartão de visita vai ser a "lagarta", lançada no ano passado, mas em carteira está já uma nova coleção, com o papel de parede de cortiça colorida a dar o mote.

É, de resto, em terras nipónicas e transatlânticas que alguns produtos da Corque podem ser comprados, com o Museum of Modern Art de Nova Iorque a dar um toque de prestígio. Em Portugal, as trocas acontecem em seis lojas distribuídas por Lisboa e pelo Porto, pontos no mapa de um mercado "engraçado".

"A parte de comunicação social corre muito bem, não temos é a parte comercial", confessa a diretora de Design da Corque. A explicação para o facto poderá estar nas características do mercado português e que justificam também a aposta inicial na internacionalização da marca. "Eu acho que o mercado português, e falo apenas do de mobiliário e design, não é um mercado pioneiro. Vai muito mais pelas marcas, pela referência", aponta Ana Mestre.

Além disso, sublinha a responsável, as peças da Corque destinam-se a um público nicho e "um público nicho nos Estados Unidos é muito maior do que cá". E o nicho é uma classe média/alta, até por razões monetárias. Se os acessórios, "que podem servir para uma pequena prenda", oscilam entre os 65 e os 200 euros, a peça de mobiliário mais cara - um pufe - atinge os 2500 euros. Já uma peça da "lagarta" custa 320 euros, enquanto uma cadeira vale 1100 euros. "As nossas peças não competem com o IKEA", admite, entre risos, Ana Mestre.

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