Amigos do peito há mais de sessenta anos

Dr. Bayard. Numa pequena fábrica da Amadora são produzidas três toneladas de rebuçados todos os dias. A culpa é da II Guerra Mundial.

Os dedos franzinos de José António Matias, ainda criança, habituaram-se desde cedo a enrolar rebuçados com a cara Dr. Bayard. A história do agora proprietário e gerente da fábrica confunde-se com a dos famosos rebuçados peitorais. Os doces, no entanto, "já eram conhecidos" quando José António nasceu. Foi o pai, Álvaro Matias, quem construiu a pulso a marca Dr. Bayard.

Tudo começou com a Segunda Guerra Mundial. Em 1939, Álvaro trabalhava numa mercearia da capital, quando conheceu um farmacêutico francês refugiado em Lisboa: o dr. Bayard. O gaulês julgava ficar pouco tempo em Portugal, mas a guerra prolongou-se e Bayard encontrou em Álvaro um amigo que lhe facilitava o acesso à comida numa altura em que esta era racionada.

"O meu pai servia de cicerone e levava o casal Bayard a visitar Lisboa e as redondezas ao fim-de-semana", conta José António. Foi o início de uma grande amizade. Com o fim da guerra, os Bayard regressaram a França, mas não sem antes retribuir a delicadeza de Álvaro Matias.

Antes de partir, dr. Bayard deixou ao português uma receita de rebuçados num papel escrito à mão, ainda hoje guardada num local secreto pela família Matias. Álvaro não lhe pegou logo, continuando a trabalhar em mercearias e a fazer horas extras nocturnas para vender rebuçados nos bares dos cinemas lisboetas. "Foi aí que ele pensou: se posso vender rebuçados, porque não fazê-los? E decidiu tentar executar a receita do dr. Bayard, com a ajuda da minha mãe", explica José António.

Antes de iniciar a conversa com o DN, o gerente da fábrica colocou logo um rebuçado Bayard na boca, garantindo que o faz com muita frequência, para "controlar a qualidade".

Hoje, a fábrica, localizada numa pequena rua da Amadora, produz aproximadamente três toneladas de rebuçados por dia. São cerca de mil por minuto, o que significa quarenta toneladas de mel por ano e seiscentas toneladas de açúcar. O que faz a diferença, porém, é a forma artesanal como a família faz o mais importante componente destes doces: "Uma espécie de xarope de plantas medicinais. O verdadeiro segredo do Dr. Bayard". Daí que as "falsificações" não consigam vingar. "Tentam imitar-nos. Na Madeira fizeram rebuçados parecidos com os nossos, em que até o papel imitaram, só que, no lugar do Dr. Bayard, puseram o Camões. Mas as pessoas notam logo que não é original", sublinha José António Matias.

E se, por um lado, a família Matias perdeu o rasto ao dr. Bayard, acabaram por imortalizá-lo com este produto, que já nos anos 50 e 60 era "famoso". Por essa altura, o popular programa radiofónico de Os Parodiantes de Lisboa foi um grande aliado da marca, eternizando o slogan: "Rebuçados Dr. Bayard. Tão bons, tão bons que até se vendem nas farmácias."

Actualmente, apesar dos efeitos medicinais, já não é nestes estabelecimentos que é mais comum encontrar estes rebuçados. "Trabalhamos com grandes distribuidoras, como por exemplo a Jerónimo Martins", explica. Daí que a empresa ultrapasse os 2,3 milhões de euros de facturação.

Mesmo sem exportar ("a fábrica não tem capacidade para isso"), os rebuçados são conhecidos em Portugal e no estrangeiro, principalmente junto das comunidades portuguesas. A crise para a Dr. Bayard só começou em Junho deste ano, altura em que foi obrigada a reduzir a produção. Ainda assim, os rebuçados peitorais continuam com saída. A família Matias tem ainda 14 marcas registadas, cujas receitas incluem sabores como o chocolate. Porém, por agora, só produzem de mentol. E, claro, os famosos peitorais, que - como escreveu uma jornalista da Grande Reportagem em 1985 - são os verdadeiros "amigos do peito".

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