De tamancos antigos nasceram botas 'fashion'

Duas amigas que não tinham a ver com a indústria do calçado fizeram botas do típico calçado português. A marca Xus nasceu em 2008

"Vamos à praia?", convidou um amigo de Rita Melo, a meio da semana passada. A empresária, sócia da Xuz, marca de sapatos nascida em 2008, reinventando socas e tamancos portugueses, disse que não e, do outro lado da mesa que decora o escritório da empresa, na Lx Factory, em Lisboa, Maria do Carmo Alvim, a outra metade do negócio, ri-se. "Os próprios amigos não têm noção do trabalho que é", dizem uma e outra.

De ano para ano, a Xuz tem vindo a duplicar o volume de vendas. Começaram com 300, depois 600 e no primeiro semestre deste ano chegaram aos 10 mil pares vendidos, a mesma marca que tinham atingido em 2010. Até ao final do ano contam chegar aos 15 mil. "O nosso dossier de reposição já é uma coisa importante", afirma Rita. Com a novidade de esta estação estarem em mais pontos de venda na zona norte (Porto e Braga). Por isso, quem as quiser ver é no escritório, até às 20.30, rodeadas de amostras, sapatos e caixas de cartão.

Na Xuz, microempresa por definição (tem menos de 10 empregados e factura menos de 10 milhões de euros por ano), além da ex-produtora de televisão Rita e da ex-quadro da SIBS Maria do Carmo, trabalha apenas a secretária. Mas há mais 52 postos de trabalho envolvidos na produção destes sapatos, como se pode ler nos cartõezinhos atados às socas, sandálias e botas que saem de um dos cerca de 70 pontos de venda (maioritariamente boutiques) que vendem a marca. "Só faltamos mesmo nós", dizem.

A ideia dos socos nasceu por nostalgia em 2008. Meses depois, para o Inverno, as duas amigas e sócias investigavam como transformá-los em botas. Numa feira onde se vendiam os típicos tamancos do norte encontraram a solução. E apesar da resistência inicial, conseguiram convencer os fornecedores que era possível fazê-las com a sola dos típicos tamancos portugueses. E o que antes era impossível, há um ano já era copiado. Resultado: este ano, já há modelos patenteados. "Uma coisa era inspirarem-se no que fazemos, outra é quererem fazer igual", considera Maria do Carmo. "E é uma pena que sejam fábricas portuguesas a fazê-lo", acrescenta. No combate à pirataria vale-lhes o facto de fazerem as séries curtas e apostarem na variedade de modelos. E, para temperar o mau trago da contrafacção, a originalidade do design valeu-lhes o prémio revelação GAPI - Prémios Inovação na Fileira do Calçado, entregue em Setembro na feira de Dusseldorf.

Cerca de 15% do volume total de vendas são exportações. Maria do Carmo Alvim gostava de ver as Xuz em Nova Iorque, Rita diz que o importante agora é "consolidar os mercados actuais". "Depois atiramo-nos a novas coisas." A Escandinávia é o principal destino dos sapatos que saem de Portugal. Holanda e Alemanha são outros possíveis destinos e também já estão no Canadá. "Uma cliente nossa levou o conceito para lá", explica Rita Melo.

Todas as estações, Rita Melo e Maria do Carmo Alvim preparam novidades nas colecções. A de Outono/Inverno 2011/12 traz botas com solas diferentes e as do próximo Verão ainda são segredo. Do que se vai passar no próximo Outono/Inverno há pelo menos um pormenor que já pode ser revelado: contarão com as ideias de uma jovem designer, com formação em Londres e uma experiência internacional que, à semelhança de outras pessoas (designers e comerciais), se propôs a trabalhar na marca. Vai colaborar no desenho das peças da marca já na próxima estação fria. "Gostámos dela, achámos que tinha tudo. Chegou aqui com o portefólio mas também com o que elas achava que eram as ideias Xuz", conta Maria do Carmo Alvim. Convenceu.

Exclusivos

Premium

Ferreira Fernandes

"Corta!", dizem os Diáconos Remédios da vida

É muito irónico Plácido Domingo já não cantar a 6 de setembro na Ópera de São Francisco. Nove mulheres, todas adultas, todas livres, acusaram-no agora de assédios antigos, quando já elas eram todas maiores e livres. Não houve nenhuma acusação, nem judicial nem policial, só uma afirmação em tom de denúncia. O tenor lançou-lhes o seu maior charme, a voz, acrescida de ter acontecido quando ele era mais magro e ter menos cãs na barba - só isso, e que já é muito (e digo de longe, ouvido e visto da plateia) -, lançou, foi aceite por umas senhoras, recusado por outras, mas agora com todas a revelar ter havido em cada caso uma pressão por parte dele. O âmago do assunto é no fundo uma das constantes, a maior delas, daquilo que as óperas falam: o amor (em todas as suas vertentes).

Premium

Crónica de Televisão

Os índices dos níveis da cadência da normalidade

À medida que o primeiro dia da crise energética se aproximava, várias dúvidas assaltavam o espírito de todos os portugueses. Os canais de notícias continuariam a ter meios para fazer directos em estações de serviço semidesertas? Os circuitos de distribuição de vox pop seriam afectados? A língua portuguesa resistiria ao ataque concertado de dezenas de repórteres exaustos - a misturar metáforas, mutilar lugares-comuns ou a começar cada frase com a palavra "efectivamente"?

Premium

Margarida Balseiro Lopes

O voluntariado

A voracidade das transformações que as sociedades têm sofrido nos últimos anos exigiu ao legislador que as fosse acompanhando por via de várias alterações profundas à respetiva legislação. Mas há áreas e matérias em que o legislador não o fez e o respetivo enquadramento legal está manifestamente desfasado da realidade atual. Uma dessas áreas é a do voluntariado. A lei publicada em 1998 é a mesma ao longo destes 20 anos, estando assim obsoleta perante a realidade atual.