Mário Lino negou ter feito pressões

Ex-ministro disse, há sete meses, que Ana Paula  Vitorino lhe obedecia. Senão, ironizou, "tinha-a despedido"

Quando surgiram as primeiras notícias de que a dirigente do PS Ana Paula Vitorino teria sido pressionada por Mário Lino - há sete meses - , o ex-ministro das Obras Públicas disse então ao DN que essa hipótese era uma "fantasia". Lino remete-se agora ao silêncio, apesar das tentativas do DN para o ouvir, mas na altura disse que a acusação de ter pressionado a sua subordinada e ela não lhe ter dado ouvidos não tinha "pés nem cabeça", chegando mesmo a ironizar: "Se ela não me tivesse obedecido, tinha-a despedido."

Agora, o que mudou é que não se trata do escrutínio das escutas feito pela imprensa, mas sim de uma acusação do Ministério Público que acusa o ex-ministro de corrupção e abuso de poder. Estas acusações têm como fundamentação, precisamente, as declarações da ex-secretária de Estado dos Transportes ao MP, a quem Lino terá alegadamente "lembrado" que o empresário Manuel Godinho, principal arguido do processo, era "amigo do PS".

De acordo com escutas do processo "Face Oculta", reveladas pelo semanário Sol (ver caixa ao lado), foram várias as pessoas a pressionar o ministro para que isso, de facto, tivesse acontecido. Na altura tornou-se mediática a afirmação de um funcionário da Refer que foi apanhado a dizer: "Ó pá, o Sócrates tem de dar uma sticada na gaja. Isto está a entrar por um caminho preocupante."

Há mesmo uma conversa entre Lopes Barreira, um dos arguidos do processo, e Godinho em que o primeiro diz: "O Lino ligou-me e eu disse-lhe: 'A culpa é tua porque és o chefe e não tens coragem para a pôr na ordem'."

Por outro lado, o ex-ministro sempre recusou qualquer ligação a Godinho, chegando a relembrar o facto de ter sido ele a "enviar para o DIAP o processo em que se detectavam irregularidades com a empresa do sr. Manuel Godinho. Reencaminhei o despacho, porque havia matéria criminal".

Mário Lino foi também envolvido numa ramificação deste processo: o chamado caso PT/TVI. A propósito do alegado envolvimento do Governo no negócio de compra da estação de Queluz por parte da PT, Mário Lino chegou a depor numa comissão parlamentar de inquérito, onde negou esse envolvimento.

Tanto Ana Paula Vitorino como Mário Lino são vistos como duas figuras da confiança do primeiro--ministro. A ex-secretária de Estado faz inclusive parte do órgão de cúpula do PS, o secretariado nacional. Além disso, a socialista chegou a ser apontada como ministra das Obras Públicas deste segundo Governo de José Sócrates, devido à sua proximidade com o primeiro-ministro. Nesta legislatura é, afinal, "apenas" deputada.

Também Mário Lino é visto como muito próximo de José Sócrates. O actual chefe de gabinete do primeiro-ministro, Guilherme Dray, era aliás o chefe de gabinete do ministro Mário Lino no anterior mandato. Esta mudança foi até interpretada como exemplo da influência que Mário Lino tem junto do primeiro-ministro José Sócrates.

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