Engenheiro da Refer admite pressões para empresas de Godinho

Um engenheiro da Refer admitiu hoje a existência de pressões para que o empresário Manuel Godinho, principal arguido no processo 'Face Oculta', pudesse concorrer aos concursos lançados pela empresa, após ter sido banido da lista de fornecedores qualificados.

Jorge Antunes, que começou a trabalhar na Refer em 2007 na área da contratualização, particularmente no processo de venda de resíduos, disse que tinha instruções para que as empresas de Manuel Godinho fossem afastadas do processo de venda de resíduos, cumprindo uma deliberação da administração liderada por Luís Pardal.

Após uma consulta para a alienação de toda a infra-estrutura do ramal de Vila Viçosa, nesse mesmo ano, o empresário das sucatas terá apresentado uma reclamação ao vice-presidente da Refer, Vicente Pereira, por não ter sido convidado.

"Manuel Godinho dizia basicamente que soube pela concorrência que tinha sido lançado um concurso para a Vila Viçosa e pedia que ordenasse aos serviços para que a O2 fosse também convidada", referiu este engenheiro, que prestou hoje depoimento enquanto testemunha de acusação no tribunal de Aveiro.

Face a esta reclamação, Jorge Antunes foi chamada ao gabinete de Vicente Pereira, que lhe terá perguntado quais as razões para a O2 não ter sido convidada.

"Estranhei a pergunta, porque havia um despacho do presidente da Refer a determinar a exclusão da O2, além de que havia um histórico de suspeições sobre aquela empresa", contou.

Segundo a testemunha, Vicente Pereira terá ainda manifestado abertura para responder afirmativamente ao pedido formulado por Manuel Godinho, dizendo-lhe para "mandar um e-mail aos intervenientes a dizer que o prazo tinha sido prolongado".

"Fiquei à espera do despacho para agir em conformidade, mas não houve despacho", contou o engenheiro, acrescentando que esta foi uma das razões que fundamentaram o seu pedido para sair desta área.

Jorge Antunes realçou ainda que uma semana após a reclamação de Manuel Godinho a administração da Refer decidiu que as vendas de sucata passariam a ser feitas por concursos públicos, concluindo que, dessa forma, a O2 já poderia concorrer.

Face a estes acontecimentos, a testemunha admitiu que "terão existido pressões para colocar novamente o empresário Manuel Godinho dentro da Refer".

Questionado sobre os preços oferecidos pela O2 para a compra da sucata, Jorge Antunes disse que as propostas de Manuel Godinho "suplantavam toda a concorrência em 10 ou 15 por cento".

A testemunha relatou ainda uma conversa que teve com um empresário canadiano que procurava sucata em Portugal e que "ficou muito espantado", dizendo que o preço da O2 "era impraticável".

Tendo em conta as queixas e suspeitas que havia, Jorge Antunes afirmou ter ficado com a ideia de que "Manuel Godinho apresentava um preço elevado na perspetiva de levar mais material do que o que estava previsto contratualmente".

A testemunha confessou ainda que antes de entrar para Refer já tinha sido avisado por colegas seus para que tivesse "muito cuidado" face a uma "teia de interesses e de corrupção que existiria no interior da empresa", envolvendo "um conjunto de pessoas engajadas com o empresário Manuel Godinho".

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