Ana Paula Vitorino pressionada a recuar

Ex-secretária de Estado e actual deputada escreveu a deputados do PS dizendo que declarações suas sobre o papel de Mário Lino foram "truncadas"

Caiu muito mal na Direcção do PS a notícia segundo a qual a dirigente socialista Ana Paula Vitorino (ex-secretária de Estado dos Transportes) teria dito aos investigadores do processo "Face Oculta" que Mário Lino (ex-ministro das Obras Pública) a tentara sensibilizar a resolver um alegado contencioso entre Manuel Godinho e a Refer, alegando, nomeadamente, que o sucateiro de Ovar era um empresário "amigo do PS".

Desde que a notícia saiu (no DN, no passado dia 26), não pararam as pressões sobre a ex-secretária de Estado, agora deputada, para que a "esclarecesse" - isto é, desmentisse. Ana Paula Vitorino integra o órgão de topo na estrutura executiva do PS, o Secretariado Nacional. E, desde Novembro de 2009, a Comissão de Gestão do PS, "por designação" de Sócrates.

Quando a notícia estava a ser elaborada, recusou comentá-la: "Não faço qualquer comentário sobre processos em segredo de justiça. Até me recuso a ouvir o que quer que seja." E o mesmo fez, aliás, Mário Lino: "Sobre esse assunto não faço declarações, porque é um processo em segredo de justiça. Desconheço quaisquer declarações que tenham sido prestadas pela Ana Paula Vitorino no âmbito desse processo."

Ontem, uma semana depois, foi tornada pública (na edição online do DN) uma carta que Ana Paula Vitorino escreveu a todos os seus camaradas da bancada parlamentar, prestando "esclarecimentos".

Na carta, assinada com data de segunda-feira (1 de Novembro), afirma ser "lamentável" a "grave violação do segredo de justiça" resultante da "publicação de excertos truncados" das declarações que prestou por escrito no processo "Face Oculta", tanto antes de ser deduzida acusação como depois. Segundo disse, foram noticiadas "versões romanceadas dos factos", por exemplo referindo o "impacto" de uma "pretensa deslocação" sua a Aveiro, "a qual nunca ocorreu".

"Nunca me considerei pressionada por ninguém e sempre agi e tomei decisões no estrito dever de defesa do interesse público e da legalidade", escreveu a deputada.

Ana Paula Vitorino afirma, por outro lado, que "sempre disse", com a "legitimidade de quem é dirigente nacional do PS", que "não admitia referências abusivas a alegados interesses do PS por parte de quem quer que fosse, muito menos por parte de quem não tem legitimidade para o fazer." "No exercício de funções governativas nunca esqueci o facto de ser militante e membro do Secretariado Nacional do PS, que integro desde Outubro de 2004 por convite do secretário-geral, José Sócrates", escreveu ainda.

Acrescentando, a rematar a missiva: "A defesa do Estado de Direito e da ética republicana estarão sempre na base do meu dever de colaboração com a justiça, no estrito respeito pela separação de poderes que a todos obriga, sejam operadores judiciários, responsáveis ou profissionais da comunicação social, pelo que rejeito veementemente quaisquer especulações políticas feitas com base em peças processuais cujo teor desconheço."

Segundo os autos do processo, Ana Paula Vitorino terá recusado afastar Luís Pardal da gestão da Refer, o qual estaria a vetar negócios com Manuel Godinho.

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