Funcionário da Refer explicou idas à casa de banho durante carregamentos de camiões

As idas à casa de banho de um funcionário da Refer, que prestou hoje declarações enquanto testemunha no processo "Face Oculta", marcaram a 39.ª sessão do julgamento, que está a decorrer no Tribunal de Aveiro.

Questionado pelo procurador do Ministério Público Manuel Garcia, começou por dizer que trabalhava no departamento de logística no Entroncamento, sob as ordens do engenheiro João Valente, coarguido no processo.

Em 2006, a testemunha ficou incumbida de fiscalizar os trabalhos de fragmentação das travessas de betão bi-bloco, no âmbito de um contrato entre a Refer e a O2, de Manuel Godinho, o principal arguido no processo.

Numa das vezes, terá sido detetado um camião com terra escondida debaixo de uma camada de betão fragmentado, durante uma inspeção da então diretora de Aprovisionamento e Logística Helena Neves, mas Manuel Garcia contou que não assistiu à inspeção, porque tinha ido à casa de banho na mesma altura.

O ex-funcionário da Refer, atualmente na reforma, disse que quando chegou da casa de banho já encontrou o camião descarregado e pensou que o tinham "fintado".

"Aproveitaram-se da minha ausência para carregar a terra. Até ralhei com eles", declarou, acrescentando que ia duas vezes por dia à casa de banho e, em média, demorava 15 a 20 minutos.

O advogado da Refer, que se constituiu assistente no processo, estranhou o tempo utilizado por Manuel Cunha nas idas à casa de banho.

"Não entendo como é que acontece tanta coisa na sua curta ida à casa de banho", referiu o advogado Pedro Duro, questionando se, naquele dia, a testemunha estaria mal disposta ou doente.

"O seu papel era evitar que eles carregassem terra e outras coisas além do betão. Porque não lhes disse para esperar?", insistiu o causídico.

"Eles fizeram isso. O problema foi esse", respondeu a testemunha, sem conseguir explicar porque não pediu para interromper os trabalhos durante a sua ausência.

Ainda na sessão de hoje, o coletivo de juízes ouviu o ex-vice-presidente da Refer José Osório da Gama e Castro, que tinha a seu cargo a área do contencioso e de exploração na parte final do mandato.

Questionado pelo procurador do Ministério Público sobre as autorizações para levantamento de carril em linhas desativadas e as prorrogações de contratos, a testemunha disse que não se recordava destes factos, que constam da acusação.

"É difícil lembrar. Estive oito anos fora da empresa e, entretanto, exerci outros cargos", alegou.

O ex-administrador da Refer admitiu ainda ter participado na negociação com Manuel Godinho para a obtenção de um acordo de pagamento das dívidas à Refer.

"Dessa reunião saiu um acordo, mas não tive nenhuma informação, se o mesmo foi cumprido", afirmou.

O processo "Face Oculta" está relacionado com uma alegada rede de corrupção que teria como objetivo o favorecimento do grupo empresarial do sucateiro Manuel Godinho nos negócios com empresas do setor empresarial do Estado e privadas.

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