Famílias vão ter de cortar nas contas até 2009

Economia pode crescer abaixo de 1,2% em 2008 e 1,3% em 2009, e os portugueses continuarão a perder poder de compra. Endividamento ao estrangeiro atingiu máximos históricos e a banca vai dificultar o crédito aos consumidores. Constâncio aconselha a tirar a ricos para dar aos pobres.

A economia portuguesa pode crescer abaixo de 1,2% em 2008 e, pelo menos, até 2009, os portugueses terão de suportar sacrifícios. O poder de compra será corroído pela inflação, aumento dos juros, as poupanças vão cair e a banca vai cortar no crédito.

O défice do país com o estrangeiro atinge o máximo da história económica: 10,6% do PIB e a dívida externa deverá atingir os 100%, o que significa que o país estará "empenhado" no final de 2008. Por fim, um recado ao governo, de Vítor Constâncio: "não à tentação de garantir o poder de compra" a toda a gente.

O que é que está a travar a economia? O Banco de Portugal aponta o dedo à desaceleração do consumo das famílias, do investimento - famílias e empresários - e da procura externa, com os principais países clientes de Portugal - também em dificuldades económicas, após o sub-prime americano - a anularem encomendas aos exportadores.

O aumento das taxas de juro e das "restrições bancárias" aos empréstimos à compra de casa esmagam o investimento e consumo das famílias. E, com menos encomendas, os empresários cortam no investimento. Diz o Governador que o investimento das empresas aumentará só 1,9% em 2008, quando em 2007 cresceu 4,2%. Em 2009 o cenário é pior: o investimento dos patrões cresce 1,1%.

Mais inflação, menos emprego em 2009 (cresce apenas 0,4%), poupanças e, como se não bastasse, os portugueses terão de cortar nos empréstimos à banca. É que, diz o Banco de Portugal, em 2007, os empréstimos às famílias aumentaram 9%, mas os rendimentos disponíveis anuais - salários, rendas, descontados os impostos - subiram 3,7%.

O endividamento das famílias - o somatório dos empréstimos junto da banca - já excede em 29% o salário anual e isto explica porque as compras das famílias crescerão apenas 1,3% este ano e 0,7% em 2009. "Não está excluído", diz Constâncio, um agravamento das condições financeiras até ao fim do ano.

O preço do petróleo e das matérias primas explica um agravamento da conta comercial com o exterior. Cifras redondas, o débito para com o estrangeiro atingirá os 13,2 mil milhões de euros, 7,8% da riqueza gerada este ano.

A dívida da banca ao estrangeiro já "atinge os 50% do PIB" afirmou Vítor Constâncio e nos quatro primeiros meses, a dívida do país ao estrangeiro já chegava aos 86,6% do PIB. Sem poupanças dos particulares (depósitos), a banca pode estar nos limites da capacidade em contrair financiamentos externos.

Constâncio quer discutir nuclear e dá conselhos

A política energética terá de ser discutida de novo, "incluindo a opção nuclear", afirmou ontem Vítor Constâncio, contrariando as opções de Sócrates para a actual legislatura. Não é a única discordância de Constâncio em relação ao primeiro ministro, que inclusive deixa conselhos "políticos" de governação.

Em Abril, quando o Fundo Monetário Internacional (FMI) vaticinava um crescimento de 1,3% para a economia portuguesa, José Sócrates, o primeiro-ministro, apelidou o Fundo de "profeta da desgraça". O próprio governador do banco, Vítor Constâncio, também declarou que as "previsões eram um exagero". Três meses depois, Constâncio agrava as previsões e avisa o Governo para não aumentar as despesas orçamentais.

"O único tipo de resposta a curto prazo", para atenuar perdas de poder de compra, diz Constâncio, "tem a haver com medidas de redistribuição de rendimentos", focada nas classes de "mais baixos rendimentos", sem passar por aumentos das despesas sociais. Há margem para "tirar aos ricos e dar aos pobres?". Pelos cálculos do Banco, os salários reais (em termos médios) cresceram 0,6% em 2007, após perdas de 0,5% em 2006.

"Qualquer tentativa de prolongar a procura interna", diz o governador referindo-se ao investimento público - sem se pronunciar sobre as obras públicas - através da política orçamental, "não resultará em nada". Pelo contrário, diz, qualquer expansão orçamental, "significaria uma redução da poupança", o que teria como consequência, "um aumento do défice externo", em máximos históricos e em "mais inflação".

Constâncio aconselha a "continuação da consolidação orçamental", ou seja, a redução do défice orçamental em direcção ao equilíbrio em 2011. Até agora, o "ajustamento orçamental" - a redução das despesas e aumento das receitas, através de impostos - rouba à economia algumas décimas de crescimento. Até 2009, diz o relatório do banco central, o consumo (gastos governamentais) e o investimento públicos terão um "contributo virtualmente nulo para o crescimento da actividade económica".

Excluído os gastos do Estado, "o ajustamento" económico, diz o governador, "terá de ser efectuado através de aumentos da produtividade", o que se consegue através da "melhoria do capital humano", concorrência, licenciamentos e flexibilização da economia "incluindo as relações do trabalho".

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