Dívida total ao estrangeiro atinge 71,6% da riqueza

O endividamento de Portugal ao exterior atinge níveis recorde. Em Novembro último, o passivo da banca face ao estrangeiro ultrapassou o PIB previsto para 2006, em resultado da pressão consumista e dos empréstimos à habitação e às empresas nacionais. Em média, cada português deve ao estrangeiro pouco mais de dez mil euros.

A dívida do País ao estrangeiro atingiu o nível mais elevado de sempre. Em Setembro último já representava 71,6% da riqueza nacional (PIB). Contas feitas, cada português deve em média à banca estrangeira mais de dez mil euros. Boa parte desta dívida é explicada pelos empréstimos ao consumo, compras de casa própria e crédito às empresas.

Tal como uma correia de transmissão, o endividamento dos portugueses (ver caixa) também levou a banca nacional a endividar-se, contraindo fundos ao estrangeiro, para satisfazer o forte apetite pelo crédito. Em Setembro do ano passado, e pela primeira vez na história bancária, o seu passivo acumulado (responsabilidades) para com o exterior ultrapassou o total da riqueza gerada pela economia num ano.

Ou seja, a dívida bancária, no montante de pouco mais de 158 mil milhões de euros, ultrapassava em 3,8% o PIB previsto para 2006. Este endividamento só não é preocupante porque os activos da banca nacional no estrangeiro levam a que o "saldo externo" da banca represente apenas metade (49,7%) do PIB português.

O uso de poupanças externas para enfrentar o crédito tem uma explicação: as poupanças internas (entre as quais os tradicionais depósitos bancários) são insuficientes para enfrentar o "apetite" de crédito. Ou seja, se os portugueses estão endividados, a banca é o espelho.

À excepção da Caixa Geral de Depósitos - a única instituição bancária em que os passivos (depósitos) nacionais são superiores aos créditos concedidos -, o resto do sistema financeiro tem de recorrer ao mercado internacional de poupanças.

Nos últimos 12 meses, a banca comercial teve de contratar mais de 16 mil milhões de euros - o equivalente a cerca de 10% do PIB - para colmatar a apetência interna por empréstimos (ver texto em baixo). Para o mesmo intervalo de tempo, os activos da banca aumentaram apenas mil milhões de euros.

A dívida total das famílias, empresas - públicas e privadas - e do Estado ao estrangeiro somava 109 mil milhões de euros em Setembro. Desde 2003, a dívida ao exterior subiu 17,8 pontos percentuais, e só nos últimos 12 meses aumentou 16 mil milhões de euros, não existindo sinais de abrandamento significativo pela corrida ao crédito.

Para remunerar o endividamento, os custos anuais podem superar os 3,5% do PIB. No futuro, a factura com o serviço da dívida poderá ser mais pesada, acompanhando o aumento das taxas de juro. A única saída, dizem os economistas, para superar os custos da dívida global é aumentar a capacidade produtiva e competitiva da economia. Só assim serão gerados rendimentos para enfrentar as dívidas.


O roteiro para as dívidas das famílias e empresas


Endividamento

Os empréstimos contratados pelas famílias equivalem a 120% do rendimento médio anual disponível - o salário livre de impostos. Um valor alto, mesmo para os padrões europeus. Também as empresas estão endividadas, o que explica parte das dificuldades na capacidade de investimento. O endividamento médio ultrapassa os 100% do PIB, o que coloca as empresas nacionais entre as mais endividadas da OCDE.

O apetite pelo crédito

A voracidade dos portugueses pelos empréstimos bancários teve origem nas baixas taxas de juro após a adesão ao euro, quando Portugal controlou , de forma eficaz, a inflação. Com uma política de forte expansão orçamental a ajudar, as poupanças, bem como os empréstimos, foram canalizadas para o boom no mercado imobiliário.

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