Cada português pagou em média 410 euros de juros à banca estrangeira

Só em juros com empréstimos bancários e transferências para o exterior cada português pagou 410 euros ao estrangeiro nos primeiros três meses do ano, mais 100 euros em comparação com igual período do ano passado.

Como se explica esta factura financeira com o exterior? A principal razão está na apetência dos portugueses pelos empréstimos bancários. É tão grande que os banqueiros nacionais estão sem dinheiro gerado por poupanças das famílias e empresas - em tradicionais depósitos e aplicações - e são obrigados a contratar empréstimos no exterior para satisfazer o apetite por crédito dos portugueses. Ou seja, como afirmam os economistas ,"estamos a viver graças a poupanças de estrangeiros".

A gula dos portugueses pelos empréstimos - crédito à habitação, consumo e investimento - levou a um enorme endividamento da banca junto do estrangeiro nos últimos anos. O que está a preocupar os economistas, já que a balança de rendimentos ameaça ficar fora de controlo. Tal como o "efeito dominó", a escalada de créditos acabou por provocar um aumento da dívida do País ao estrangeiro, estimado em 122,4 mil milhões de euros, 78,8% da riqueza gerada (PIB). Ou seja, cada português deve ao estrangeiro 12,2 mil euros.

As contas são simples, mas as cifras impressionam. Em 2006, a dívida dos banqueiros portugueses aos seus colegas estrangeiros atingiu os 73,8 mil milhões de euros, um aumento de 40% face a 2005. Este compromisso da banca nacional, fora de fronteiras, representa agora 47,5% do PIB, o valor mais alto de sempre.

Isto aconteceu porque os portugueses estão a pressionar a banca com pedidos adicionais de créditos. No ano passado, os empréstimos acumulados ao longo dos anos, solicitados aos balcões bancários, já atingiam a módica quantia de 115 mil milhões de euros, o suficiente para construir 33 aeroportos com a dimensão da Ota. Entre 2005 e 2006, as famílias - para pagar casas e em consumo de supermercados e compras de carros, por exemplo - pediram à banca mais 15,2 mil milhões de euros.

Esta corrente de pedidos de crédito está a provocar a deterioração do défice da nossa balança de rendimentos. A tal ponto que os economistas já consideram o desequilíbrio desta balança como a principal ameaça para a economia portuguesa, a médio prazo. No ano passado, o défice chegou aos 5,3 mil milhões de euros, 3,4% do PIB. Já este ano, em comparação com os primeiros três meses do ano passado, o saldo negativo - no montante de 1,3 mil milhões de euros - aumentou 32% este ano.

O défice da balança de rendimentos ameaça continuar a escalada. Ainda no primeiro trimestre deste ano, para remunerar o capital pedido ao estrangeiro (juros e transferências), os portugueses gastaram uma significativa parcela dos 4 mil milhões de euros. Representa um crescimento de 24,6% em relação a igual período do ano passado.

Como os portugueses aguentam esta factura? Um mistério, mas as famílias estão muito endividadas. Em média, o salário anual dos portugueses, descontado de impostos - o chamado rendimento disponível - não chega para liquidar os empréstimos à banca. Ou seja, o montante da dívida dos portugueses - a amortizar durante vários anos - ultrapassa em 20% o salário médio anual.

Apesar do endividamento das famílias ultrapassar os 120% do rendimento disponível, a banca comercial não parece disposta a travar a febre do crédito. É que, apesar do contínuo aumento do preço do dinheiro, o crédito malparado está ainda em níveis baixos.

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