Cada português já deve 12,5 mil euros

Empréstimos das famílias à habitação e consumo levaram a banca a contratar mais créditos ao estrangeiro e a divída do País aumentou. Agora a alta nas taxas de juro complica as contas dos consumidores e coloca em causa a posição externa do País.

A dívida do País ao estrangeiro atingiu cifras galácticas nos primeiros seis meses deste ano: 131,9 mil milhões de euros, o equivalente a sete meses da riqueza extraída ao trabalho dos portugueses. Ou seja, já atingiu os 81,3% do PIB e, contas feitas, cada cidadão deve ao estrangeiro 12,5 mil euros.

Este é o resultado da febre consumista, iniciada nos finais da década passada. Está aqui, na dívida ao estrangeiro, os efeitos dos empréstimos bancários para a compra de casa, carros, mobílias, electrodomésticos e férias.

O pior é que a factura da dívida pode ainda atingir valores mais elevados nos próximos meses. O endividamento dos portugueses - que já representa 120% do rendimento anual sem impostos - não pára de aumentar. Mesmo com as taxas de juro pressionadas em alta, após a crise do crédito imobiliário de alto risco nos EUA, os portugueses não parecem temer o crédito.

Em Julho, os empréstimos à habitação e ao consumo aumentaram 7,8% em relação ao mesmo mês do ano passado, de acordo com as cifras ontem divulgadas pelo Banco de Portugal. O malparado praticamente estagnou e representa apenas 1,8% do crédito concedido pelos banqueiros.

Para os banqueiros, o apetite dos portugueses pelos empréstimos leva a banca a pedir mais dinheiro ao estrangeiro. É que falta poupança nacional - os portugueses não estão a amealhar - e os depósitos a prazo já não são a fonte do dinheiro para emprestar.

Ou seja, o dinheiro dentro do País está esgotado. Resultado, em Junho deste ano, os bancos já deviam às instituições estrangeiras mais de 85,8 mil milhões de euros, 52,9% da riqueza nacional (PIB). Só nos primeiros sete meses deste ano, os banqueiros tiveram de importar da Zona Euro cerca de 12 mil milhões de euros.

Isto paga-se caro. Entre juros e capital liquidados pelas famílias e empresas ao exterior, a conta, nos primeiros sete meses do ano, vai nos 10,8 mil milhões de euros, um aumento de 23,5% face a Julho do ano passado, quando já os analistas alertavam para a "bomba-relógio" do défice para com o estrangeiro.

O défice externo (a balança de transacções correntes) atingiu um défice de 6,9 mil milhões de euros entre Janeiro e Julho inferior ao ano passado, mas a balança de rendimentos está cada vez mais deteriorada e assusta os economistas.

É que entre juros e rendimentos recebidos e pagos ao exterior o défice desta balança já supera os 3,9 mil milhões de euros nos primeiros sete meses do ano. Ou seja, a conta anual do País para suportar o endividamento - através do pagamento de juros - deverá, este ano, chegar aos 5% do PIB. Um recorde.

Até quando os consumidores vão resistir? Por enquanto, o crédito malparado nos empréstimos à habitação é insignificante. As famílias podem ter dificuldades, mas os empréstimos à banca parecem ser a última factura a deixar de ser liquidada. E mesmo as empresas são pontuais na relação com a banca. Em Julho deste ano, face ao mesmo mês de 2006, conseguiram recuar em 3,2% o crédito em cobrança duvidosa.

Mas a resistência das famílias portuguesas pode estar no limite. Ontem, a Euribor a três meses, a taxa de juro média praticada pelos principais bancos, estava ainda acima dos 4,7%, longe dos 4,0% fixados pelo Banco Central Europeu.

Jean-Claude Trichet, o presidente do banco central, bem gostaria que a taxa estivesse colocada nos 4,25%, de modo a travar as tensões inflacionistas na área do euro. Mas o mercado entre os banqueiros (interbancário), teimosamente, insiste em colocar a taxa 0,5 pontos percentuais acima do desejável. Este é o resultado da desconfiança que reina entre os bancos no mundo.

Os banqueiros receiam que em troca dos empréstimos sejam servidos por títulos contagiados com o sub-prime americano - o crédito de alto risco no imobiliário nos EUA. E por isso emprestam dinheiro, mas a juros mais altos.
Para os portugueses, a desconfiança entre os banqueiros significa pagar mais juros pelas dívidas.

A diferença entre a taxa desejada pelo BCE (4,25%) e a imposta pelo mercado (4,7%) pode significar, a prazo, um acréscimo de 10,6% na factura mensal com os juros do crédito à habitação, mesmo que o banco de Jean-Claude Trichet mantenha o preço indicativo do dinheiro. Um encargo extra mensal para as famílias que pode atingir em cheio a economia.

Esta semana, o INE relatava que a economia estava a crescer graças ao maior contributo do investimento e do consumo, ao mesmo tempo que a importância do comércio externo está a diminuir. Ou seja, a economia portuguesa está refém da procura interna - consumo e investimento.

Para já, entre Janeiro e Julho deste ano, de acordo com os dados ontem divulgados pelo banco central, os empréstimos às empresas aumentaram 6,9%, o que pode confirmar maior apetência pelo investimento empresarial. Mas as taxas de juro em alta podem provocar uma contracção interna na economia, levando as famílias a travar o consumo, baixando as encomendas à produção.

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