OS ACTIVOS TÓXICOS TÊM COISAS BOAS

A Vanessa desatou a falar com desenvoltura e optimismo sobre a crise internacional, o que me deixou atónita. " Subprime " para cá, activos tóxicos para lá. Quando caiu o mundo em cima de Wall Street e a fúria das nacionalizações atacou os gurus do neoliberalismo, fazendo do nosso querido Jerónimo de Sousa parecer de relance um social-democrata, vi-me e achei-me para assimilar a coisa. Ela não, ao que me disse.

- Eu passei toda a minha vida a gerir crises, montes de crises, crises familiares, crises financeiras, crises conjugais, crises emocionais, crises no emprego, crises no condomínio, crises de coluna. A crise é o meu elemento natural. Aliás, um tempo prolongado de estabilidade dá-me nervos.

- A estabilidade dá-te nervos?

A Vanessa olhou para mim com um ligeiríssimo toque de superioridade, aquele olhar que as pessoas que conhecem bem a vida reservam para deitar a todos os que julgam ser muito ingénuos. Só me faltava agora isto para compor o fim-de-semana.

- A estabilidade dá nervos a qualquer pessoa normal. Isto é das coisas que toda a gente que percebe alguma coisa da vida sabe.

Arrumou-me no canto esconso dos que não percebem nada disto. Não me importei. Ao fim e ao cabo, acho que efectivamente, e postas em análise algumas variáveis, percebo pouco.

- E então por que raio a estabilidade dá nervos? Não é essa a melhor coisa que uma pessoa, ou um sistema financeiro, espera atingir?

Resolvi arriscar, já que ali estava, e porque não tinha rigorosamente mais nada para fazer. Sempre me encantou a quantidade enorme de coisas idiotas que qualquer um de nós faz apenas porque tem tempo livre.

- Isso é absolutamente simples. Quando está submerso em estabilidade, um corpo (de uma pessoa ou de uma empresa) não tem nada para fazer. Anda para ali, num rame-rame, atulhado em tranquilidade e sossego, inclusivamente em alegrias, que são coisas bestialmente chatas. A instabilidade, por outro lado, desenvolve em nós aquelas maravilhosas capacidades do animal que tem que ir à guerra para sobreviver. Somos capazes de coisas fantásticas quando estamos infelizes.

Eu não tive capacidade para rebater e ela continuou, empenhadíssima nas alegrias da crise:

- Diz-se por aí muito mal do subprime . Mas eu, por exemplo, que passei a vida toda a hipotecar os neurónios a relações afectivas de subprime não tenho nada contra. É verdade que hipoteco o amor em activos tóxicos, mas até agora acho que nunca me arrependi, apesar de todas as bancarrotas que já tive que aguentar.

- Hipotecas o amor em criaturas tóxicas, vais à bancarrota e não te arrependes? (Oh, o meu eu conservador esbugalhado!)

- É evidente que não. A bancarrota puxa pelo animal acossado que existe em nós. Só os pactos de estabilidade me dão a sério cabo dos nervos.

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