O MUNDO DO AVESSO

1. A crise dos mercados financeiros terá, a seu tempo, repercussões nas ideologias, mas, neste momento, para liberais e socialistas, para a direita e para a esquerda, o tempo é ainda de entender.

O problema está em que o mundo anda demasiado depressa: Muro de Berlim, 11 de Setembro, explosão económica da China, globalização, proliferação do nuclear, subprime e falta de regulação dos mercados financeiros! São demasiadas novidades para as certezas de outrora, afinal só aparentemente sólidas.

Se o mito do comunismo ruiu diante do muro, levando a URSS logo a seguir - e mostrando ao mundo como tudo aquilo era instável e perigoso, além de utópico, hoje é o tempo de os liberais serem colocados perante a desgraça do santificado mercado.

Pior ainda, são chamados a desejar algo de absolutamente contranatura: que o Estado remedeie aquilo que a economia livre deveria assegurar (ou pagar à custa de ainda mais e incontáveis falências) e que o colectivo intervenha para pagar o risco que deveria caber aos indivíduos que apostaram.

E tudo isto acontece não ao menos na Rússia de Putin e do outro, mas na última superpotência imperialista e em crise de confiança, paraíso do capitalismo, onde a coerência dos velhos republicanos não consegue travar um plano que, mal por mal, deveria ter saído da cabeça de um democrata. (E felizmente que, para bem da maioria, a aprovação surgiu).

É, obviamente, o mundo do avesso! Aturdido. Não tarda suceder-lhe-á a demagogia. A esquerda hoje não parece ter melhor referência que o populismo sul-americano de Hugo Chávez a tricotar por entre as malhas dos impérios outrora vermelhos e a direita baba-se por Barack Obama e pela maneira como ele prega. Nada de entusiasmante e, acima de tudo, pouco tranquilizador.

A Europa parece não contar neste admirável mundo novo. Negoceia com todos e apenas sobrevive à espera de melhores dias e de um líder que não se vê onde possa estar.

2 . O secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, finalmente admite a possibilidade de outras alianças que não com aquela criação interna, verde, que permitiu esconder a foice e o martelo da vista perspicaz dos eleitores. Por isso defende a "convergência", "uma alternativa de esquerda" para romper com "a política do PS". É a esquerda portuguesa a reagir perante a sua janela de oportunidade.

Jerónimo está a ver bem: se a ele e aos seus camaradas se juntasse o bando de Louçã e além disso fosse possível somar os votos presidenciais do romântico Alegre, neste caldo frentista, se ele fosse mesmo possível, já podiam estar quase 30% de votos.

Com dinâmica nas ruas podia fazer-se um governo. Inaugurar-se-ia com certeza um paraíso internacionalista (e já agora: liderado por quem?) que seria o escárnio do mundo civilizado. Hugo Chávez viria, com certeza, ver-nos todas as semanas.

Marcelo Rebelo de Sousa (MRS) acha "original" que a ERC o classifique como um comentador do PSD. Ora independentemente de a ERC dever ter outras prioridades de análise, que para isso foi criada, eu não acho nada original. A classificação é sobretudo óbvia - e chega-se lá tanto por exclusão de partes, o que demora mais tempo, como pelo respectivo cartão de militante.

Os estragos que MRS vai causando nas sucessivas lideranças do PSD, de que foi presidente, não são prova de "independência", quanto muito significam que, a partir do palco político televisivo, ele continua empenhado em condicionar o partido. Comentador do PSD, pois, e em todos os sentidos.

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