Precisam-se 80 mil milhões para poupar banca mundial

O mundo financeiro está suspenso das negociações para salvar a maior seguradora mundial. Depois da falência do Lehman Brothers, as atenções centram-se na AIG, presente em Portugal. No final do dia de ontem, a Bolsa dos EUA subiu com sinais de que a Fed prepara um pacote para salvar a empresa.

A evolução da Bolsa de Nova Iorque, ontem, foi um barómetro perfeito do estado da situação em torno da possível falência da maior seguradora mundial, a American International Group (AIG). O mercado oscilou entre ganhos e perdas ao ritmo da possível ajuda das autoridades federais norte-americanas para evitar uma falência com um alcance muito mais global que a do dia anterior (Lehman Brothers).

Os índices fecharam com ganhos acima de 1%, depois de terem surgido dados que apontavam para um "pacote" de ajudas financeiras pela Reserva Federal (Fed) com vista a evitar o seu colapso. Na véspera, tinham sofrido a maior queda diária desde o 11 de Setembro, acumulando perdas de 17% em 2008.

De acordo com uma fonte citada pela Bloomberg, a Fed estaria a preparar, no âmbito das ajudas já dispensadas no caso da Fannie Mae e Freddie Mac, um pacote de liquidez nas contas da AIG para resolver os "buracos" financeiros resultantes da exposição ao mercado de crédito hipotecário de alto risco ( subprime ). Uma das soluções avançadas, ao final da noite, passava por colocar a empresa sob gestão judicial.

A dimensão desse "buraco" foi revelado, antes, pelo governador de Nova Iorque, David Paterson, que adiantou ontem aos jornalistas que "a AIG tem um dia. Penso que precisam de 75 a 80 mil milhões de dólares (53 a 56 mil milhões de euros)".

A problemática situação da AIG agravou-se depois de as agências de classificação de dívida terem descido a qualidade do seu crédito. Uma decisão que gerou, de imediato, perdas de 13 mil milhões de dólares relacionados com as responsabilidades assumidas. O Governo dos EUA contratou dois dos maiores bancos - e dos mais saudáveis -, Goldman Sachs e JP Morgan, para avaliar a dimensão do problema.

E é com base nas suas conclusões que irão definir os termos do "pacote" de ajudas, que servirá sobretudo para dar tempo à empresa de se reorganizar e, a prazo, vender activos para resolver os problemas mais graves. O dia de hoje será decisivo para perceber o alcance desta medida.

Ameaça global

Se a falência do Lehman Brothers gerou uma reacção muito nervosa nos mercados - foi a maior de sempre nos EUA -, o possível colapso da AIG provocou um verdadeiro pânico em todo o mundo. A seguradora tem negócios com praticamente todos os bancos mundiais. A sua falência provocaria uma reacção em cadeia de consequências incalculáveis, já que a sua carteira de activos ascende a um milhão de milhões de dólares.

Para além da sua actividade seguradora, que se falhar levará ao esvaziamento dos fundos de garantias dos 130 países onde opera. A AIG foi das instituições mais activas na comercialização de complexos produtos financeiros, denominados de credit default swaps (CDS). Na prática, estes CDS seguram os investidores contra os incumprimentos nas trocas de obrigações entre si. Este "bolo" está avaliado em 441 mil milhões de dólares nas contas da AIG.

Se falhar, o receio é que se assista a uma "cascata" de falências em instituições financeiras de todo o mundo. E é exactamente este o efeito mais temido - mas em muito menor dimensão - da falência do Lehman Brothers. Refira-se que a degradação da AIG traduziu-se, nos últimos três trimestres, num prejuízo acumulado de 18,5 mil milhões de dólares.

Presença em Portugal

A seguradora norte-americana está presente no mercado português desde 1985, tendo sido a primeira empresa estrangeira do sector em Portugal. Actualmente, conta com cerca de 40 mil apólices de seguros, uma quota de 0,2% no ramo de seguro directo (30,4 milhões de euros). A sucursal, sob a marca American Life Insurance Company (Alico), emprega 80 pessoas e tem uma rede de 250 agentes.

O Instituto de Seguros de Portugal (ISP) procurou, ontem, acalmar os clientes da seguradora, alguns dos quais deslocaram-se às instalações da AIG, em Lisboa, para pedir informações. No comunicado, o regulador assegura que "as dificuldades financeiras que o grupo possa estar a sentir nos EUA não põem em causa o cumprimento das obrigações da sucursal em Portugal".

Isto porque as responsabilidades assumidas em Portugal estão "devidamente salvaguardadas por activos localizados em território nacional". Para além de que "dispõe ainda de fundos próprios suficientes para cobertura da margem de solvência exigida legalmente". Ou seja, não existe um risco real de falência da sucursal.

Segundo apurou o DN, os clientes portugueses que pediram o seu dinheiro de volta, já ontem, foram informados que só dentro de 15 dias é que essa devolução poderá ser efectuada. Isto, no caso dos seguros de vida, com capitalização.
Quanto à análise que o ISP está a fazer à exposição das carteiras de fundos de pensões à problemática seguradora, o DN soube que deverá demorar algumas semanas.

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