Vem aí uma vaga de nacionalizações

Primeiro, os bancos centrais emprestaram dinheiro aos bancos que se recusavam a ceder créditos uns aos outros. Depois, os governos compraram os "créditos tóxicos" para aliviar os balanços dos bancos. Mas não foi suficiente. Agora, todos se viram para a última das soluções: a nacionalização.

O sector bancário na Europa e nos Estados Unidos vai ser varrido por uma inusitada onda de nacionalizações, parciais ou totais. A decisão de o Reino Unido, na quarta-feira, disponibilizar 65 mil milhões de euros para capitalizar os bancos em maiores dificuldades é a confirmação de que as soluções pontuais adoptadas por vários países, designadamente os do Benelux (em favor dos gigantes Fortis e Dexia), vão assumir um carácter mais estruturante.

Inicialmente, as autoridades procuraram resolver o problema com a libertação de fundos por parte dos bancos centrais, de modo a satisfazer as necessidades de financiamento dos bancos que deixaram de conseguir obter crédito junto dos seus pares devido à desconfiança generalizada no sector. Depois, os governos - como o norte-americano com o plano Paulson - decidiram comprar os "créditos tóxicos" de modo a equilibrar os balanços das instituições. Mas agora a por muitos odiada palavra "nacionalização" começa a tornar-se incontornável.

Segundo a edição de ontem do New York Times, que citava fontes do Tesouro norte-americano, depois de aprovar o plano de aquisição dos créditos tóxicos no valor de 700 mil milhões de dólares, o Governo prepara-se para assumir posições no capital dos bancos em dificuldades. O Estado injectaria dinheiro fresco nos bancos e em troca ficaria com acções que poderia vender a longo prazo, gerando mais--valias para o erário público.

Não haverá um Lehman na UE

Na Europa, a principal preocupação é evitar a falência de um banco. "Não toleraremos um Lehman Brothers europeu", disse a ministra francesa da Economia, citada pela agência AFP. "Quando cai uma peça de dominó, as outras caem de seguida", acrescentou. Para muitos especialistas, a verdadeira origem da presente crise de confiança no sistema bancário não está no subprime mas sim na falência do Lehman Brothers, em meados de Setembro - o único banco que Administração Bush deixou cair.

"Estamos todos de acordo que nenhuma instituição com carácter sistémico possa falir", disse Jean-Claude Juncker, em nome do conjunto dos ministros das Finanças da Zona Euro. A chanceler alemã, Angela Merkel, também veio ontem frisar que "não podemos excluir nenhuma possibilidade".

Em Portugal não será diferente. O ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, garantiu que todos os depósitos estão a salvo. Sabendo que o fundo de garantia tem um limite (revisto em alta para 50 mil euros), o Governo está simplesmente a assumir que não deixará nenhum banco falir, nem que isso implique nacionalizá-lo.

Entretanto, o Fundo Monetário Internacional (FMI) anunciou ontem que vai lançar um plano de emergência para financiar os países que se vejam forçados a intervir no sector bancário. Citado pelo site do The Guardian, Dominique Straus-Khan, director-geral do FMI, quantificou esta ajuda mundial em "centenas de milhares de milhões de dólares".

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