Plano Bush passou mas não chega para acabar com a crise

A semana começou com um chumbo e terminou com uma aprovação. Durante o tempo que decorreu, o plano Bush foi alvo de inúmeras adendas como forma de contentar o número suficiente de representantes do povo dos EUA. Uma das medidas até acabou por beneficiar a portuguesa EDP Renováveis.

"Na segunda-feira votei pelos americanos. Hoje [ontem] votei com a minha mão no peito pelo meu país porque as coisas estão mesmo más e não temos outra hipótese. Estamos sem opções e encostados à parede." Esta frase pertence a um dos vários membros da Câmara dos Representantes que se opuseram ao plano Bush, na primeira votação, e que ajudaram à sua aprovação, ontem, por 263 votos a favor e 171 contra.

O Governo dos EUA fica, assim, com 700 mil milhões de dólares (507,5 mil milhões de euros) à sua disposição para comprar os "activos tóxicos" espalhados pelo sector financeiro, resultantes da falência do segmento de crédito hipotecário de alto risco ( subprime ). O objectivo é estimular os bancos a voltarem a emprestar dinheiro entre si num mercado "congelado" desde que começaram a ser conhecidos os danos da exposição ao subprime . E que já resultaram em perdas de 600 mil milhões de dólares.

Para a aprovação do plano foi essencial a sua transformação: de um documento de três páginas num complexo manual legislativo de 451 páginas, com várias medidas de todos os tipos. O primeiro bloco dirige-se ao sector financeiro e inclui, entre outras medidas, o aumento da garantia de depósitos de cem mil para 250 mil dólares ou a libertação faseada do pacote (250 mil milhões, 100 mil milhões e, só com nova votação no Congresso, mais 350 mil milhões de dólares).

No segundo bloco - avaliado em 150 mil milhões de dólares - incluem-se as medidas de natureza mais política e que permitiram ao Senado votar 74-25 a favor do plano e inverter, na Câmara, a votação inicial de 228-205 contra. Entre elas, estão medidas de incentivo fiscal à produção de energias renováveis - que acabaram por beneficiar a EDP Renováveis - e cortes fiscais para a classe média. Mas também medidas de alcance menos nacional, como os dez milhões de dólares previstos para as empresas que estimulem o uso da bicicleta pelos seus funcionários na deslocação para o trabalho (ver caixa ao lado).

Um efeito da politização do processo, com os vários membros da Câmara a procurarem contentar os seus eleitores directos a menos de um mês das eleições para este órgão. No entanto, o argumento definitivo para o "sim" ao plano - apoiado na maioria por democratas (172), mas também por republicanos (91 votos) - foi a maior queda das bolsas de Wall Street desde o crash de 1987, logo a seguir ao chumbo inicial. E que colocou em risco as poupanças de milhões de norte-'americanos.

E agora, o que se segue?

O sucesso do plano está, agora, na mão dos mercados financeiros, em particular dos bancos. Serão eles que irão determinar se esta "limpeza" dos danos provocados pelo subprime é suficiente para os fazer voltar a emprestar dinheiro entre si. Se assim for, haverá um "desbloqueamento" dos mercados de crédito e as taxas interbancárias - Euribor, Libor - inverterão a escalada.

Ontem, as bolsas dos EUA fecharam com quedas de 1,5%. Os investidores já estão mais preocupados com a actividade económica, que dá sinais cada vez mais fortes de recessão. É por isso que os analistas acreditam numa descida das taxas de juro, em breve, nos EUA e na Zona Euro. O plano terá de ser implementado, numa primeira fase, até Dezembro de 2009. A definição do preço dos "activos tóxicos" determinará se a sua factura irá ou não contribuir, a médio prazo, para prolongar o já inevitável período de abrandamento económico.

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