O homem que ganhou dinheiro com a maior crise financeira em 65 anos

Este é um dos momentos mais negros da vida profissional de todos os agentes financeiros envolvidos no 'subprime'. Todos? Não. Há um irredutível investidor que quadruplicou os investimentos em plena crise.

John Paulson recebeu o maior salário da Bolsa de Wall Street, em Nova Iorque, em crise financeira. E mereceu-o. Enquanto todos os outros perderam, este gestor antecipou a crise e ganhou milhões.


Como é que alguém consegue ganhar um salário entre três e quatro mil milhões de dólares (1,9 e 2,5 mil milhões de euros) - o mais elevado em Wall Street em 2007 - durante uma crise financeira que o ex-presidente da Reserva Federal, Alan Greenspan, já classificou como "a pior desde a Segunda Guerra Mundial"? Simples: apostou que a crise ia ocorrer alguns meses antes de todos os outros o terem percebido.


Os resultados são facilmente perceptíveis. Enquanto os maiores bancos do mundo perdiam dinheiro pela sua exposição ao subprime, John Paulson, fundador de uma pequena gestora de fundos de alto risco (hedge funds), transformou os seis mil milhões de dólares que administrava em 28 mil milhões.


A receita parece simples, mas exigiu muita perspicácia, algum risco e enorme controlo emocional. De tal modo foi notável o trabalho de John Paulson, antigo director do Bear Sterns (ironicamente, a maior vítima da crise de crédito), que Greenspan fez questão de ser aconselhado pelo gestor nova-iorquino. E o guru George Soros, um dos homens mais ricos do mundo graças ao seu historial de investimentos proféticos, convidou-o mesmo para um almoço.


A história feliz de John Paulson ajuda a compreender melhor a origem e ramificações de uma crise que começou num segmento muito específico do crédito hipotecário e alastrou a todos os grandes bancos mundiais. E tudo porque Paulson decidiu desafiar a lógica convencional.


Em 2005, quando a economia dos EUA não dava sinais de fraqueza, o gestor que tinha lançado os seus próprios hedge funds dez anos antes começou a apostar num cenário de arrefecimento económico. Isto graças a um mecanismo financeiro complexo que permite rentabilizar os investimentos quando os activos subjacentes perdem valor. Apostou na dívida das fabricantes automóveis, mas falhou. Já um pouco nervoso, procurou outros mercados onde fosse visível uma "bolha". Mandou os seus colaboradores para o terreno. E estes regressaram com uma lista de pequenos sinais que indicavam que o crédito hipotecário atribuído a famílias de risco podia ser o primeiro a cair: os preços estavam a estagnar e as empresas de crédito mostravam-se pouco rigorosas. Consciente de que as agências de avaliação de dívida tinham sido muito generosas na classificação dos veículos associados ao subprime , Paulson e a sua equipa não tiveram dúvidas: apostar forte na deterioração deste mercado.


Depois de meses de alguma tensão, com sinais contraditórios sobre a evolução do mercado, surgiu, em Fevereiro de 2007, a notícia que, em todo o mundo, só alegrou Paulson: a New Century, uma das empresas do subprime , anunciou um prejuízo trimestral. A partir daí, iniciou-se uma espiral de perdas que ainda dura. Entretanto, os seus dois fundos dispararam 590% e 350%. E o dinheiro sob gestão quadruplicou. Apesar deste sucesso, Paulson continua a trabalhar e a olhar para outras oportunidades: as próximas apostas estão nos cartões de crédito e nos empréstimos automóveis.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Henrique Burnay

A ameaça dos campeões europeus

No dia 6 de fevereiro, Margrethe Vestager, numa só decisão, fez várias coisas importantes para o futuro da Europa, mas (quase) só os jornais económicos repararam. A comissária europeia para a Concorrência, ao impedir a compra da Alstom pela Siemens, mostrou que, onde a Comissão manda, manda mais do que os Estados membros, mesmo os grandes; e, por isso mesmo, fez a Alemanha e a França dizerem que querem rever as regras do jogo; relançou o debate sobre se a Europa precisa, ou não (e em que condições), de campeões para competir na economia global; e arrasou com as suas possibilidades (se é que existiam) de vir a suceder a Jean-Claude Juncker.

Premium

Anselmo Borges

Islamofobia e cristianofobia

1. Não há dúvida de que a visita do Papa Francisco aos Emirados Árabes Unidos de 3 a 5 deste mês constituiu uma visita para a história, como aqui procurei mostrar na semana passada. O próprio Francisco caracterizou a sua viagem como "uma nova página no diálogo entre cristianismo e islão". É preciso ler e estudar o "Documento sobre a fraternidade humana", então assinado por ele e pelo grande imã de Al-Azhar. Também foi a primeira vez que um Papa celebrou missa para 150 mil cristãos na Península Arábica, berço do islão, num espaço público.

Premium

Adriano Moreira

Uma ameaça à cidadania

A conquista ocidental, que com ela procurou ocidentalizar o mundo em que agora crescem os emergentes que parecem desenhar-lhe o outono, do modelo democrático-liberal, no qual a cidadania implica o dever de votar, escolhendo entre propostas claras a que lhe parece mais adequada para servir o interesse comum, nacional e internacional, tem sofrido fragilidades que vão para além da reforma do sistema porque vão no sentido de o substituir. Não há muitas décadas, a última foi a da lembrança que deixou rasto na Segunda Guerra Mundial, pelo que a ameaça regressa a várias latitudes.