Fundos de obrigações com perdas de 10% a 25%

As perdas nos mercados financeiros estão a passar uma factura muito significativa nos fundos de investimento. A situação mais grave é nos produtos de dívida, onde a capacidade de recuperar é mais limitada.

A forte quebra do valor dos activos em carteira e um vincado movimento de saída de participantes são os dois problemas sérios que estão a afectar a gestão de fundos de investimento mobiliário em Portugal e que tornam urgente, em alguns dos casos mais graves, a injecção de liquidez nas carteiras, sob pena de terem de encerrar as portas para pagar os compromissos assumidos. É para evitar esta situação que o Governo decidiu dar à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) poderes especiais para flexibilizar as regras de gestão.

No fundo, a entrada de dinheiro fresco - através de mais crédito ou de transferências de capitais dentro do grupo bancário onde se inserem as gestoras - ajudará a resolver os dois problemas: pagar as constantes e elevadas saídas de participantes; e comprar activos mais baratos para compensar as perdas sofridas pelos que já estão muito deteriorados nas carteiras. Os fundos de obrigações - os mais populares do mercado português - são os que mais preocupação suscitam. Não só porque a fuga de investidores tem sido mais acentuada, mas também porque a desvalorização dos títulos em carteira demora mais tempo a recuperar.

Mas o problema mais urgente são os fundos que já estão muito endividados, superando mesmo os limites legais. Nestes casos, é necessário flexibilizar as regras de forma a criar alternativas para captar liquidez.

Crise afunda rentabilidades

Nos fundos de acções, as rentabilidades médias oscilam entre os -52% (acções portuguesas) e os -40% (EUA). Nestes casos, como são produtos de longo prazo, ainda é possível recuperar deste desempenho negativo, desde que as bolsas subam, o que não deverá acontecer de forma sustentada nos próximos meses.

No caso dos fundos de obrigações, o problema é mais difícil de resolver sem injecções imediatas de capital. Neste segmento, há uma grande disparidade de rentabilidades: há fundos com retorno positivo e outros com perdas de 25%, 22%, 18% ou 10% (ver números em baixo). Estas carteiras estão muito expostas à dívida das empresas, que foi fortemente penalizada pela crise financeira com epicentro no mercado de crédito hipotecário de alto risco nos EUA ( subprime ).

Desde a falência do Lehman Brothers e da intervenção estatal nos EUA em várias entidades financeiras e hipotecárias, os títulos de dívida privada sofreram fortíssimas quebras no seu valor, perante o aumento geral da percepção de risco de incumprimentos. A recuperação nestes fundos é mais lenta, porque está dependente do fim da maturidade dos títulos de dívida. E não se perspectiva uma recuperação de curto prazo, já que as estimativas de recessão estão a aumentar o preço (e a descer o rendimento) dos produtos indexados à capacidade de as empresas cumprirem com as dívidas assumidas.
A alternativa dos gestores é vender já os títulos e as acções, assumindo fortes perdas, para pagar as obrigações assumidas com os participantes em fuga.

Fuga em massa

A venda imediata de activos desvalorizados é, contudo, inevitável para pagar aos participantes que já decidiram sair do fundo. Nos fundos de obrigações de taxa variável, as perdas de dinheiro atingiram 3388 milhões de euros em apenas 12 meses. Alguns destes fundos perderam mais de metade dos volumes neste período. Esta situação cria uma fortíssima pressão sobre os gestores, obrigados a endividarem-se ou a venderem activos para pagar os resgates.

Em termos gerais, o mercado português perdeu cerca de 12 mil milhões de euros desde o pico de 30 mil milhões no final de 2006.

O nível global de endividamento deste mercado ainda é reduzido, não ultrapassando 1% do total. Contudo, há produtos em que esse valor já ultrapassa em muito os limites de 10%. É no equilíbrio entre endividamento e nível de responsabilidades assumidas (investimento em activos, pagamentos aos participantes) que se gere o destino dos fundos.

Por outro lado, a liquidez disponível tem vindo a reduzir-se, situando-se numa média de quase 10% das carteiras. Mas se há fundos relativamente confortáveis, também há outros em que a liquidez está perto do zero, colocando os gestores sem margem de manobra para resolver os problemas. Daí a urgência da lei aprovada pelo Governo de flexibilizar a gestão das carteiras.

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