Bancos começam hoje a usar 'aval' do Estado

Governo deu garantias no valor de 20 mil milhões de euros à banca nacional para que consiga dinheiro para as "famílias e empresas", numa operação concertada com a UE. Hoje, Paris, Londres, Bona e Roma anunciam os planos de resgate bancários. Nacionalizações, trocas de títulos e garantias são as medidas.

Depois de garantir os depósitos aos portugueses, o Governo passa agora a "fiador" dos banqueiros, seguindo, à risca, o plano europeu. E começa já hoje a prestar garantias aos empréstimos entre bancos até ao montante máximo de 20 mil milhões de euros. E, ontem mesmo, os maiores bancos nacionais já deram indicações ao Executivo de que vão usar, a partir de hoje, o chapéu-de-chuva governamental para ter acesso à liquidez (dinheiro vivo) no estrangeiro.

Uma "intervenção" estatal na banca, inesperada, ontem anunciada por Teixeira dos Santos, no final do Conselho de Ministros extraordinário, que oficialmente serviria para aprovar o Orçamento para o próximo ano. Com o "aval", o Governo pretende, até Dezembro de 2009, facilitar à banca nacional a contratação de dinheiro junto de bancos estrangeiros ou do Banco Central Europeu (BCE). "Isto porque", diz o ministro, "sem financiamento da actividade não haverá progresso económico".

A banca portuguesa está com dificuldades em obter dinheiro? "O recurso a esta garantia não é um sinal de fragilidade dos bancos", responde o ministro, que garantiu desconhecer "sinais" de "qualquer ocorrência que possa colocar em perigo o nosso sistema financeiro" (ver caixa). O objectivo, afirma, "é reforçar a capacidade do nosso sistema financeiro" para "melhorar o acesso" dos banqueiros ao dinheiro.

A banca nacional - tal como o sistema financeiro internacional, a seguir ao subprime - necessita de dinheiro para emprestar às famílias e empresas. E o dinheiro até existe, com o BCE a inundar o mercado com milhares de milhões de euros e os bancos a devolverem até ao último cêntimo, respeitando prazos acordados.

Só que, ao nível dos três mil bancos europeus (uma espécie de segunda linha nos empréstimos), ninguém quer ceder dinheiro. Isto porque desconfiam da "qualidade" dos activos - leia-se acções, obrigações, títulos diversos - que sirvam de garantia aos empréstimos interbancários. Toda a gente desconfia que o vizinho pode fechar as portas.

É aqui que entra as garantias do Estado português. Os 20 mil milhões de euros em garantias - 11,7% do PIB, cinco vezes o tamanho do défice orçamental projectado para 2009 - são a chave para o acesso ao cofre do dinheiro no mercado interbancário.

Cifrões que não assustam os banqueiros. É que, contas feitas, em Junho deste ano, os empréstimos da banca portuguesa junto dos banqueiros estrangeiros foi estimado, pelo Banco de Portugal, em 92 mil milhões de euros, 54,1% do PIB. Este endividamento é explicado pela forte apetência dos portugueses pelos empréstimos (habitação, consumo, investimentos) e, por outro lado, pela falta de poupanças (depósitos).

Nos primeiros seis meses, os empréstimos acumulados já atingiam os 263,1 mil milhões de euros. Para enfrentar estes créditos existiam em depósitos na banca nacional apenas 150 mil milhões de euros, 57% das necessidades para empréstimos. Existem rácios legais a cumprir, mas foi para cobrir este diferencial - entre empréstimos e depósitos - que os banqueiros tiveram de recorrer à banca estrangeira, contratando os tais 92 mil milhões de euros.

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