28 de Abril de 2004: o dia em que nasceu a crise

Durou apenas 55 minutos a reunião que, em Abril de 2004, abriu campo para o excessivo endividamento dos cinco maiores bancos de investimento dos EUA, precisamente aqueles cujos problemas foram o principal sintoma, até ao momento, da grave crise financeira global que obrigou à aprovação do plano Bush.

Nesse encontro, estiveram presentes cinco membros de topo da Securities and Exchange Comission (a polícia da bolsa dos EUA) e um representante de cada um dos bancos: Lehman Brothers (entretanto falido), Bear Sterns ("salvo" pelo JP Morgan), Merrill Lynch ("salvo" pelo Bank of America), Morgan Stanley e Goldman Sachs (ambos transformados em bancos comerciais para evitar a insolvência). O presidente deste último era, na altura, Henry Paulson, o actual secretário de Estado do Tesouro e a "face" do plano aprovado ontem.

Endividamento sem controlo

Segundo o The New York Times, nesse encontro foi aprovado por unanimidade o fim da regra que limitava os montantes de endividamento que podiam assumir as unidades de corretagem desses bancos. Desta forma, foram libertados milhares de milhões de dólares "parqueados" para fazer face a eventuais perdas sofridas por decisões de investimento.

Essas reservas foram, então, utilizadas pelos bancos para procurar rentabilizar o ressurgimento das bolsas ou o boom imobiliário. Foi esse dinheiro que acabou por entrar no mercado de crédito hipotecário de alto risco ( subprime ) e transformar-se em produtos estruturados vendidos, posteriormente, em todo o mundo. E que, depois do colapso do subprime , acabou por obrigar à criação do plano de 700 mil milhões de dólares com vista a "limpar" esses activos tóxicos.

Como é que a SEC permitiu que os bancos se "alavancassem" ao ponto de deverem mais de 30 dólares por cada dólar que detinham na realidade? O "negócio" dava uma contrapartida à entidade reguladora: acesso livre aos modelos de risco implementados pelos próprios bancos.

No entanto, esse plano teve dois problemas: os modelos de risco estavam desactualizados; e a divisão da SEC responsável por fazer a supervisão dos riscos do investimento dos bancos nunca foi devidamente activada. Resultado: os bancos ficaram à solta para tomar as decisões de investimento que entenderam, sem adequarem os montantes do seu endividamento à capacidade de os cobrirem em caso de perdas. Durante esse período, os cinco bancos acumularam activos no valor total de quatro triliões de dólares (2,9 biliões de euros).

Decisão quase 'secreta'

No momento da decisão, as poucas vozes que criticaram a anulação da obrigatoriedade de adequação das dívidas ao capital dos bancos foram ignoradas. Na imprensa norte-americana não houve um único artigo sobre o tema. "Fomos ingénuos ao acreditar que as empresas tinham uma forte cultura de autopreservação e responsabilidade e seriam disciplinadas no seu excessivo endividamento", explicou ao NY Times um professor de contabilidade da Universidade de Duke, James D. Cox. "Aprendemos todos uma lição terrível", acrescentou.

Há uma semana, o actual líder da SEC, Christopher Cox, anunciou o fim do programa de 2004, reconhecendo a incapacidade da regulação para travar a iminente falência dos cinco bancos. Uma decisão tomada poucos dias depois de o candidato republicano, John McCain, ter exigido a sua demissão.

Ler mais

Exclusivos