Santos Ferreira: O gestor humanista que gosta de tertúlias e teme andar de avião

O mínimo que se pode dizer de Santos Ferreira, o novo presidente do BCP , é que é uma figura com interesses em várias áreas. E muito consensual entre os amigos. Socialista a quem se apontam ligações à maçonaria e que rejeitou sempre ser ministro. Benfiquista, gestor e banqueiro, é, afinal, também um viajante.

"É impossível trabalhar com o Carlos sem ficar profundamente amigo dele, um amigo para a vida. Sem qualquer tipo de lisonja, mesmo que eu quisesse apontar qualquer tipo de defeito na vida privada do Carlos não conseguia."

Embora elogiosa, a definição de Mário Assis Ferreira, presidente da Estoril-Sol, não permite perceber quem é Carlos dos Santos Ferreira fora das empresas. Quem é afinal o novo presidente do maior banco privado português?

Carlos dos Santos Ferreira, tecnocrata reservado, metódico e ponderado, é elogiado pelo humor sarcástico, pelo seu interesse pelas artes, viagens e pela importância que atribui às relações com aqueles de quem gosta.

Jorge Coelho, antigo ministro do PS e amigo do presidente do BCP , traça o retrato de um homem apaixonado pelos prazeres da vida, quer os do plano espiritual quer os materiais. "É o grande organizador de tertúlias, reuniões de amigos que cultiva muito e que costuma realizar aos fins-de-semana. Nestas reuniões dá azo também a outra grande paixão, que é o gosto pela boa mesa. É um homem que gosta de comer bem e é um profundo conhecedor de vinhos.

Mas também adora música clássica e ópera. Assiste a todas as temporadas da Gulbenkian, no S. Carlos e também acompanha todos os espectáculos produzidos pelo Casino Estoril. Além disso, é um profundo conhecedor de pintura e escultura."

Verdadeiro amante de arte moderna, Santos Ferreira é amigo de João Cutileiro há mais de 30 anos. O escultor não regateia elogios ao tecnocrata contraditório de humor venenoso. "É engraçado, porque é precisamente a distância entre mim e o Carlos Santos Ferreira que mantém a nossa grande proximidade há mais de 30 anos, e quando falo de distância quero dizer diferença de áreas. Eu sou um escultor, um homem ligado às artes, e ele é um tecnocrata.

Se eu o conhecesse agora era essa a ideia com que ficava dele, um tecnocrata. Mas não é preciso muito tempo para se desfazer essa imagem, porque ele é um verdadeiro humanista. O Carlos é um homem de contrastes. Parece um tecnocrata, mas tem um lado filantropo muito forte, que adora arte e os amigos. É transparente. E o humor dele? Ui!", ironiza João Cutileiro, com o riso na voz. O artista recorda com especial satisfação as tertúlias que o banqueiro organiza duas a três vezes por ano em sua casa, "onde reúne 20 a 30 amigos, que vão das artes à política". Ainda assim , avisa Jorge Coelho, "apesar de ser um homem de grande entrega, muito dedicado aos seus amigos e agradecido a quem lhe faz bem, também não esquece quem lhe faz mal. E essas pessoas, mais cedo ou mais tarde, acabam por pagar".

Estudioso da história militar - aquilo que Francisco Murteira Nabo, presidente do conselho de administração da Galp, define como "uns caprichos esquisitos", embora "tenha tudo a ver com negócios" - Carlos Santos Ferreira tornou-se num especialista em batalhas históricas e chegou a frequentar um curso de pós--graduação no Instituto de Altos Estudos Militares, até à entrada na Caixa Geral de Depósitos. Segundo Mário Assis Ferreira, que com ele partilhou a gestão da Estoril-Sol durante dois anos e meio, o conhecimento da estratégia militar leva-o a ludibriar com facilidade os adversários. "Uma das particularidades que mais impressionam nele é a arte com que diz não. É um homem de grandes convicções mas quando não concorda com alguma coisa não o diz logo. É capaz de elaborar um discurso de cinco ou dez minutos durante os quais vai apresentando razões, até que o interlocutor percebe que não há outra solução a não ser ouvir uma recusa."

O presidente da Estoril-Sol salienta o facto de "saber sempre o que vai encontrar na casa de Santos Ferreira": uma vida privada inatacável, que se deve a "uma postura impecável, a relação muito estável com os dois filhos e uma vida conjugal de grande cumplicidade".

Talvez motivado pela paixão pela história, o novo presidente do BCP é um viajante inveterado e prefere destinos pouco comuns e menos presentes nas rotas turísticas mais procuradas. Dos sítios que mais gostou de visitar destaca o extremo asiático, em especial a Birmânia e o Vietname, onde foi à procura de paz. "Mas o seu grande refúgio é na Córsega. Tem um quarto num hotel onde tenta ir pelo menos uma vez por ano passar férias. É lá que se sente em casa, onde toda a gente o conhece, onde tem o seu vinho", confidencia Mário Assis Ferreira ao DN. João Cutileiro concorda que Santos Ferreira tem o fascínio das viagens, mas mais quando aterra. "Embora pareça contraditório para quem presidiu ao Aeroporto de Macau e geriu a ANA, a verdade é que ele andava sempre em sobressalto nessa altura: é que ele morre de medo de andar de avião."

Carlos Monjardino, presidente do conselho de administração da Fundação do Oriente, prefere destacar as capacidades de liderança de Santos Ferreira. "Trabalha bem em equipa e é cauteloso nas decisões que toma. Tem um sentido de gestão muito apurado e é muito inteligente. O que mais me impressiona nele é o facto de pesar bem todos os prós e os contras das questões, pensa tudo muito bem, é muito ponderado. E acima de tudo é muito focado, leva a bom porto tudo aquilo em que entra".

Para Carlos Monjardino, são estas qualidades que fazem de Carlo Santos Ferreira a pessoa certa para resolver os problemas do BCP neste momento, "porque tem um entendimento do que é a coisa pública e o que é a coisa privada". E porque é um "profissionalão", acrescenta Jorge Coelho. Aquilo que todos garantem ser um gestor de face humanista.
 
Santos Ferreira, 58 anos, licenciou- -se na Faculdade de Direito de Lisboa, onde foi colega de curso de personalidades como Marcelo Rebelo de Sousa, Leonor Beleza e Braga de Macedo. Foi administrador da ANA, presidente do Aeroporto de Macau, presidente da Mundial-Confiança e administrador da Seguros & Pensões (ex- BCP ). Em Maio de 2003, assumiu a vice-presidência da Estoril-Sol. Dois anos depois, em 2005, regressou à banca, desta vez para presidir ao maior banco português e único ainda controlado pelo Estado, a Caixa Geral de Depósitos (CGD). Na política foi deputado pelo PS de 1976 a 1979 e, apesar de íntimo de António Guterres, nunca aceitou integrar nenhum governo. Em Dezembro passado renunciou ao cargo na CGD , para se candidatar à presidência do BCP , posição que assumiu esta semana.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG